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Um mais-além na formação do analista

Um mais-além na formação do analista

Nem todo terreno é fértil para formar um psicanalista. Por mais instigante que a psicanálise possa parecer e que alguns até atrevam-se, não é possível a todos.
Há de se ter coragem. Também. Há de se resistir. Também. E principalmente, há de se ter uma sensibilidade além. E gostar disso. Muito.
Um psicanalista rema muitas vezes contra a maré. A maré que tampona. Obstrui. A maré daquilo que soa bem. A maré do juízo de valor. A maré que generaliza. Iguala. Desconsidera o diverso.
A principal matéria prima de trabalho está exatamente nos não ditos, nos vãos, nos sem-sentido. Malditos.
No Real.
Trabalhamos com a poeira colocada embaixo dos tapetes. É a poeira que nos interessa. Aquilo que soa descartável. Aquilo que não queremos ver. Ou saber.
Trabalhamos com a vergonha. Com o imundo. Mazelas. Com o escárnio. Exatamente aquilo que supomos desprezível e que por horror gostaríamos de descartar.
Pois é exatamente nos descartáveis que seguimos apostando.
É o des-cartar que nos interessa. Aquela carta que gostaríamos fora do baralho. Essa é a carta que nos dá notícias de nós. Daquilo que é nosso. E que definitivamente, não queremos.
Somos também aquilo que não gostaríamos. Somos aquilo que odiamos. Somos o prato que cuspimos. Somos aquilo, aquele ou aquela que desprezamos.
O precioso em nós está principalmente, onde não gostaríamos.
É com isso que rechaçamos, que seguimos trabalhando.
É com o escárnio, com a vergonha e com o desprezível que podem advir as pérolas.
A pérola é o resultado de uma reação natural do molusco contra “invasores externos”. Pérolas advém de luta. Trabalho.
Podemos produzir beleza para suportar o horror. Horror daquilo que é mais intimamente nosso. O escárnio. O desprezível. Nosso!
Mas, a beleza só se faz possível quando já podemos acolher como nosso “aquilo” que rechaçamos.
A psicanálise pode nos levar a produzir grandes pérolas.
Mas, apenas quando já podemos ser generosos com aquela carta que queremos muito longe de nosso baralho.
As pérolas nunca se darão sem ela.

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