Percebe-se, enquanto um movimento contemporâneo, a busca por identificações que, de alguma forma, norteiem o sujeito na tarefa de fazer da própria vida alguma coisa carregada de sentido, realização e felicidade. Isso tem se dado a partir de discursos que centralizam nele, no sujeito, um poder quase místico de tornar-se sua melhor versão por meio de imperativos que indicam o que e como fazer para saber viver uma boa vida – o que define uma boa vida?

Observa-se, nessa dinâmica, que a nomeação, a palavra, o sentido, – e, especialmente quem está falando – ocupa um lugar de bússola que sinaliza por onde o sujeito deve seguir para alcançar esse Ideal de Eu – o qual carrega consigo traços do tempo atual evidenciados por uma ordem de sucesso e realização – não só, mas principalmente -, em relação ao seu desempenho, e ao acúmulo de bens e de capital..

Tem-se, no avanço da modernidade para a contemporaneidade, a ampliação do imperativo do gozo, do “faça isso e terá sucesso, realização e felicidade”, evidenciando-se por meio de uma busca inesgotável por garantias que assegurem que “agora sim, agora serei realizado, feliz e viverei uma vida sem desprazeres”. Tais garantias se apresentam como estatutos da verdade, os quais surgem na tentativa de sustentar o semblante desse Ideal de Eu, dando-nos margem para pensar na relação entre isso que ocupa o lugar de verdade e aquilo que Lacan chamou de discurso do mestre: discurso que contempla um saber inquestionável, que dita a verdade. .

Sobre isso, Lacan ([1953]1988) propõe que:

É com base nessa interlocução, na medida em que elas incluem a resposta de um interlocutor, […] que o sujeito pode vaticinar sobre sua história sob o efeito de qualquer uma dessas drogas que adormecem a consciência e que receberam, em nossa época, o nome de ‘soros da verdade’ , onde a segurança no contra-senso trai a ironia característica da linguagem” (p. 259).

Quando Lacan enfatiza o conceito de interlocução, ele faz referência a dimensão da fala e da linguagem no campo do discurso, alegando que:

Seus meios (da psicanálise) são os da fala, na medida em que ela confere um sentido às funções do indivíduo; seu campo é o do discurso concreto, como campo da realidade transindividual do sujeito; suas operações são as da história, no que ela constitui a emergência da verdade no real (Lacan, [1953]1988, p. 259).

Tendo em vista a dimensão do discurso do mestre, pode-se pensar, então, que o interlocutor, esse que dá respostas, tem relação com a ideia desse que detém e resguarda o saber, os “soros da verdade”, fazendo-nos pensar na relevância que a nomeação e os imperativos ocupam nessa dinâmica, e na função que exercem na construção da subjetividade de um sujeito, a qual é constituída não só por aspectos individuais, mas também por dimensões relacionais, culturais, sociais e políticas. Além disso, faz-nos analisar atentamente quem tem ocupado a posição de interlocutor no discurso, apontado para quem, ou o que, tem ditado, no nosso tempo, os “soros da verdade” que aquietam a consciência – quais os efeitos desse silenciamento?

A ciência e o capitalismo elevam suas teorias e seus discursos ao campo do Ideal, ocupando o lugar do impossível com infinitas possibilidades, tamponando buracos e vazios que constituem e sustentam um sujeito: somos sujeitos porque somos esburacados! É evidente que o tamponamento do vazio tem efeitos na subjetividade, escancarando-se a partir das questões relativas à problemática dos novos sintomas e da psicopatologia contemporânea. Pode-se pensar que essas questões carregam em si o traço comum do saber e do capital como esses que bem localizam o sujeito em relação a si mesmo e em relação ao mundo.

Considerando, então, o que sustenta o discurso do mestre na contemporaneidade, tem-se, nesse horizonte, o encobrimento do sujeito de desejo pelo véu da verdade da ciência e pela promessa de felicidade do capitalismo, alienando-o à identificação com o Ideal de Eu, o qual se constrói a partir da dialética entre os imperativos sociais, culturais, políticos, as afirmativas da ciência e os significantes inscritos no inconsciente do sujeito. Logo, tem-se que, sem um ponto que marque os limites desses imperativos, o que se tem é um emaranhado de pura angústia.

Os atravessamentos disso na subjetividade da nossa época podem ser considerados a partir da proposta imaginária de um Ideal de Eu, que, ao ser alcançado, eleva o sujeito ao nível da completude – associada hoje em dia, talvez, à plenitude. A busca por uma identificação unificante com esse Ideal – como se fosse possível alcançá-lo por meio de um manual, receita ou curso -, tem efeitos de encobrir isso que escapa à lógica do bem-estar e escancara uma não identificação, um desprazer, em relação a quem/o que se é, o qual, por vezes, pode ser causadora de mal-estares significativos, associados à ideia de sintoma – nomeados de diversas formas nos dias de hoje: angústia, transtorno, desidentificação, burnout, depressão, ansiedade, tdah, fomo…

Nesse ponto, é importante retomar que a demarcação do que é sintoma, para além de levar em conta questões subjetivas, é também política, e que o discurso científico – do saber – em articulação com o discurso neoliberal, tem guiado a narrativa contemporânea a partir de uma lógica de tamponamento do vazio, da angústia e do desprazer – inevitáveis no percurso de uma vida – pelo imperativo do gozo, a fim de manter funcionando o sistema. Os efeitos dessa dinâmica na subjetividade contemporânea refletem no aniquilado daquilo de mais inventivo do ser humano,daquilo que tem a ver com o desejo, com os espaços de vazio, com as singularidades, com as contingências que fazem de cada um quem são.

Nota-se, a partir dos relatos que contam o que permeia o sofrimento na contemporaneidade, que há, nos imperativos de satisfação, realização e prazer, atravessamentos inegociáveis de insatisfação, frustração e desprazer – e de mais tantas outras instâncias. O apagamento daquilo que marca a autenticidade, a diferença, o descontrole, o espaço vazio, a falta, a mudança, o tempo, o desprazer, o desconforto, e, portanto, o desejo, – na intenção de alcançar uma identificação completa, toda, com um ideal de eu aniquilador -, culmina em um caldo de sintomas e angústias maquiadas por um discurso estruturado a partir de falsas promessas.

Pensando na prática da psicanálise nesse enquadre todo, tem-se algo da ordem de um convite ao sujeito de desejo, convocando-o a advir dos restos que escapam do véu do discurso contemporâneo que mortifica o desejo em nome da identificação com o Ideal da época. Isso não se dá sem grandes atravessamentos de angústia e mal-estar, afinal, não é fácil ser gente – Freud já dizia que a condição humana é cara. Mas esse percurso evidencia, mais uma vez, a dinâmica ambivalente e contraditória de prazer e desprazer, corte e costura, enosamentos e enlaces que sustenta um trabalho de análise – e de, talvez, uma boa vida.

REFERÊNCIAS

LACAN, Jacques. Função e campo da fala e da linguagem em Psicanálise (1953). In:    . Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998, p. 238-324.

Por Maria Eduarda dos Santos Domingues (CRP 08/39077)

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