Diante do medo e da exposição constante, cresce a idealização de figuras autoritárias e o uso da
vigilância digital como forma de controle parental. O que isso diz sobre o nosso modo de cuidar?
Em tempos de superexposição digital, polarização política e laços fragilizados, cresce uma inquietação entre pais e mães: como proteger os filhos? Como se faz presença num mundo em que tudo escapa por uma tela? E o que significa ser autoridade nos dias de hoje? Responsabilizar nossos filhos, estabelecer combinados, lutar por pequenas batalhas ao longo do tempo, incluí-los na vida cotidiana da casa, oferecer um convívio que contemple lazer, cultura e esporte — tudo isso é muito diferente de tentar evitar que esses filhos corram riscos por meio de mais vigilância, mais rastreamento, mais controle.
Em uma medida razoável, acordos têm a função de confirmar a potência do sujeito. Mas quando o medo se torna o eixo central do cuidado, há algo que se desloca. O que está em jogo não é mais o vínculo e sim o controle.
Nos últimos anos, vemos o retorno de figuras autoritárias como solução imaginária para o desamparo. Pais “que colocam ordem na casa”, líderes que prometem segurança e eliminação do conflito, ideais de famílias perfeitas e impermeáveis à dor. Essa lógica — presente em discursos políticos, religiosos e comerciais — oferece alívio temporário, mas sufoca a diversidade, o tempo do processo, e a escuta do outro.
É nesse contexto que as redes sociais desempenham um papel ambíguo: espaço de conexão e também de comparação constante. Pais veem a vida de outras famílias, sentem-se cobrados, inseguros, e muitas vezes tentam compensar isso assumindo um papel de vigilância sobre seus filhos. Aplicativos de rastreamento, checagem de conversas, controle de conteúdo e um desejo crescente de “saber tudo” moldam uma nova parentalidade — que promete segurança, mas compromete a confiança.
Mas o que está sendo evitado, de fato? O erro do filho — ou o medo do próprio desamparo? O excesso de controle não aponta apenas para a tentativa de proteger, mas também para a dificuldade desustentar o vazio, o tempo da espera, a singularidade do outro. Vigiar parece mais fácil do que confiar. E a ilusão de onisciência parental — alimentada pelas telas — mascara a fragilidade dos laços.
A série Adolescência, sucesso recente da Netflix, simboliza essa tensão de forma sensível. Em seu desfecho, o menino oferece ao pai um retrato: volta a desenhar e, com isso, restitui algo do laço perdido. A criação, ali, é uma brecha, é o reconhecimento de que algo foi destruído — e de que algo pode ser reconstruído, ainda que precariamente.
Depois da pandemia, fomos todos convocados a sair de nosso isolamento: voltar à vida social, regular o uso de telas, enfrentar um mundo dividido e profundamente adoecido. Adolescentes, em especial, precisaram fazer esse movimento em meio ao luto de seus próprios ritos de passagem. O trauma coletivo foi silencioso — mas deixou marcas.
A tecnologia, claro, nos ajudou a sobreviver. Mas também nos alienou, nos afastou do corpo, do tempo real, do olhar. Os alertas estão dados: aumento de adoecimento psíquico, experiências dissociativas, isolamento afetivo. Rolamos uma tela, mas não necessariamente estamos vivendo algo ali.
Vivemos o paradoxo da hiperconexão: nunca estivemos tão próximos — e tão sós. Nunca produzimos tanto conteúdo — e nos escutamos tão pouco. Talvez a urgência de resolver tudo com fórmulas rápidas e autoritárias venha da ausência de um ambiente que acolha a insegurança. O tempo do cuidado, afinal, não combina com pressa.
Resta-nos perguntar: como sustentar subjetividades sem sufocá-las? Como proteger sem controlar? Como construir autoridade sem recorrer ao medo?
A análise pessoal, nesse contexto, vai muito além da resolução de conflitos intrapsíquicos ou inconscientes, da diminuição de sintomas ou da busca por autocompreensão. Especialmente para os adolescentes, a análise pode se tornar um espaço potente de elaboração e invenção. Mais do que entender-se, trata-se de sentir-se vivo. Trata-se de ampliar o sentimento de competência individual, de sustentar a angústia sem sucumbir, de reconhecer-se como alguém capaz de desejar e agir, mesmo em um mundo que tantas vezes silencia ou adoece esse desejo.