Adolescência
A série Adolescência, sucesso da Netflix, escancara o medo e a incompreensão dos pais diante do universo adolescente. Desde seu lançamento, tenho escutado muitas falas e questionamentos que me motivam a refletir sobre o cuidado – seja ele materno, institucional ou ambiental – e sobre os tempos em que vivemos.
Logo após a estreia, percebi que a reação dominante foi de pânico e de tentativa de reforçar o controle parental. O controle, tema central dos dias de hoje,me faz pensar nas brechas exploradas pela própria tecnologia para controlar e adoecer os jovens. Muito se comentou sobre a frase do pai na série: “Maybe I took my eye off the ball a little bit.” Também se discutiu o fato de uma família aparentemente normal e amorosa criar um adolescente que esfaqueou uma colega. O que poderia ter sido feito para evitar essa tragédia? A série não entrega respostas prontas, assim como a adolescência também não oferece caminhos lineares.
Ao evitar diagnósticos e mostrar que nenhum adulto detém controle total – nem na família, nem na escola, nem na internet – a série abre espaço para uma reflexão importante. Como lidar com o desamparo que essa ausência de controle revela? Como acolher e reconhecer o adolescente sem tentar sufocar sua autenticidade?
O “olho o tempo todo na bola” me parece um ponto perigoso. A mensagem de que não vemos o que acontece no quarto dos nossos filhos depois que vamos dormir reforça o medo crescente entre os pais de crianças e adolescentes. Em um mundo em que podemos ligar, mandar mensagens e rastrear o tempo todo, é preciso lembrar que momentos de liberdade e autonomia são fundamentais para a construção de subjetividades.
Desde a pandemia, vivemos o desafio de reconstruir vínculos fora das telas. A proteção que antes fazia sentido, hoje muitas vezes alimenta o isolamento e o adoecimento. O medo, por sua vez, cresce: medo de que os filhos adoeçam, cometam crimes ou atentem contra a própria vida. Não por acaso, histórias de jovens psicopatas fazem sucesso nas plataformas de streaming.
No entanto, a resposta ao medo não está em bloquear o celular nem em multiplicar diagnósticos. A comunicação entre pais e filhos é atravessada por telas, memes e distrações que impedem o encontro e o testemunho real da vida adolescente. A internet é parte constitutiva do mundo atual, mas o consumo digital excessivo – que aumentou muito no pós-pandemia – exige alternativas de conexão reais, presenciais e afetivas.
Adolescentes me contam que há mil maneiras de burlar os controles parentais. E é verdade: eles têm criatividade e recursos. Por isso, talvez a melhor estratégia seja adiar a entrega dos celulares, propor experiências culturais e esportivas, dar exemplo e, sobretudo, criar espaços de escuta.
No mundo real, os pais enfrentam jornadas exaustivas de trabalho, contas aumentadas pelas telas e pressões de uma parentalidade idealizada pelas redes sociais. Muitos sofrem por não conseguirem estar presentes como gostariam. Quando se exige perfeição e vigilância total, o risco é que o medo e a culpa paralisem os pais, criando ainda mais distância com os filhos.
A vida não acontece dentro dos ideais de perfeição ou controle. Nossas relações são marcadas por desencontros, insatisfação e incertezas. É aí que o cuidado se torna fundamental: um cuidado que acolhe e também sabe se ausentar. Que está presente, mas não sufoca. Que reconhece o outro em sua singularidade.
Segundo Luís Cláudio Figueiredo, cuidar é prestar atenção, testemunhar o que há de singularno outro, e devolver esse reconhecimento como espelho. Isso vale para qualquer cuidador: pais, mães, professores ou profissionais. E vale também para o cuidado de si – algo essencial para que o cuidado com o outro seja possível.
Trabalhando com adolescentes de diferentes contextos, vejo que o medo excessivo pode levar a atitudes invasivas: violar a privacidade, os quartos, os segredos. Mas o excesso de controle tende a criar dependência, culpa e alienação. Precisamos de uma ética do cuidado baseada na escuta, no reconhecimento e na confiança mútua.
A retirada do celular pode parecer uma solução rápida, mas o desafio real está em encontrar brechas para o diálogo. Cuidar, afinal, é também saber escutar, dar testemunho e permitir que o outro se torne quem é.