É comum que aqueles que me buscam, seja no primeiro encontro ou até nos primeiros meses de nossa jornada terapêutica, cheguem à conclusão de que entenderam tudo. Alguns se sentem capazes de descrever todo o sofrimento que lhes assola, outros aderem à um ou mais nomes pros seus sofrimentos, muitas vezes advindos da psiquiatria. E todos esses chegam à mesma questão: “E agora?”.
Diferente de muitas linhas da psicologia e da psiquiatria, a psicanálise não termina no entendimento de algo. Na verdade, para a psicanálise, o entendimento costuma ser apenas uma parte do grande trajeto que compõe um percurso analítico.
Dar um nome ou descrição à uma forma de sofrimento é bastante parecido com o ato de produzir um mapa. Os mapas são objetos que permitem o entendimento de um espaço, mas eles não fazem apenas isso: eles também nos ensinam o que é ou não é possível.
Os mapas são capazes de nos fazer acreditar que algo não existe, mesmo que esse algo possa estar lá, no mundo real, fora do mapa. Eles também, inevitavelmente, nos apontam quais são os caminhos possíveis e impossíveis, pois se algo está traçado no mapa, imaginamos ter um bom motivo para aquilo e, ao nos desviarmos das rotas previstas, nos pomos em risco do desconhecido, nos atiramos ao perigo.
E agora que temos o mapa, o que fazer? Nos atirar ao perigo! Descobrir o que mais há na paisagem, descobrir aquilo que o mapa foi incapaz de abarcar ou compreender.
É nisso que a terapêutica psicanalítica é, também, um processo de pesquisa: o psicanalista se aventura junto daquele que o busca pelos trajetos que os mapas, nomes e descrições foram incapazes de capturar. E é nessa aventura que a descoberta de novas formas de encarar os prazeres e desprazeres da vida podem surgir: novos caminhos podem ser criados, novos lugares podem ser descobertos e novas formas de apreciar e lidar com tudo aquilo que nos ronda podem ser elaboradas.
por Felipe Schwarz