Desde o começo de minha trajetória pela psicanálise, me incomodei com o conceito de Complexo de Édipo, como então comumente difundido: a dinâmica de um filho disputando o amor de sua mãe com seu pai, disputa que o levaria a um embate, ao qual ele deveria perder para se tornar um sujeito neurótico, passando, assim, a amar, limitadamente, tanto sua mãe quanto seu pai.

O que mais me incomodava nessa ideia é sua restrição a um modelo conservador de família: papai, mamãe e filhinho. Deixando de fora, à primeira vista, as infinitas configurações possíveis de família: famílias formadas por apenas um adulto, famílias formadas por adultos do mesmo gênero, famílias formadas apenas por irmãos, etc.

Isso me levou a pensar, ao longo dos anos de estudo e prática clínica, o que então poderia ser o Complexo de Édipo — como essa ideia poderia se manter interessante, atual e útil?

De partida, me pareceram irrelevantes o gênero e o sexo da criança e daqueles que a cercam, irrelevância que nos permite propor que importante é a existência de uma criança que será cuidada por alguém — esse alguém podendo ser qualquer um.

Pode parecer aí que, de início, temos 2 elementos em nossa formulação, mas não é esse o caso, pois algo importante é que a criança ainda não consegue distinguir entre si mesma e aquele que a cuida. No começo, ela sente ser parte de seus cuidadores e nada sabe sobre o que é ser um bebê ou uma criança: isso é algo que os cuidadores a ensinarão.

Um choro, por si só, não significa nada: são as respostas do cuidador que permitirão à criança entender, com o tempo, aquilo que lhe causa sensações. É o cuidador que ensinará à criança que os humanos têm fome, frio, calor, sentem dor, medo e alegria. A criança, por si só, é um ser que vem completamente despreparado ao mundo, incapaz de cuidar de si mesma, de garantir o mínimo para sua sobrevivência e de reconhecer suas possibilidades de existência. Onde os animais têm instinto, nós temos subjetividade.

E aí entra o terceiro elemento, que será fundamental no entender da criança de que ela é um ser diferente daquele que a cuida: os outros. Aqueles que irão chamar a atenção do cuidador para fora da criança, que a farão aprender que ela não é parte de seu cuidador, nem seu único interesse. Que ela é apenas mais um ser no mundo, habitado por outros tantos.

De atual, já temos uma formulação que cabe nas diversas organizações familiares possíveis e reconhecidas hoje, mas e de interessante e útil, o que há?

Um horizonte para pensar nosso lugar no mundo!

Um princípio para questionarmos o que temos em nós que veio do outro, daqueles outros com quem nos confundimos e continuamos a nos confundir até hoje. Um ponto de interrogação sobre até onde nós realmente nos separamos dos outros que estavam lá enquanto nos constituíamos. Uma indagação a respeito de como reagimos ao fato de que não somos únicos no mundo, tanto ao mundo não ser parte de nós, mas sim algo separado, quanto ao ponto de que podemos não ser o centro das atenções e dos amores — que é totalmente possível sermos deixados de lado em prol de outra coisa.

Apesar das menções ao primeiro momento da vida do ser humano, esses processos se repetem por uma vida inteira — estamos constantemente nos mesclando a alguns outros, nos separando de terceiros e nos enganando que somos únicos no mundo. Cabe à psicanálise, ao pensamento e às artes nos ajudarem a descobrir o quanto dessa lógica ainda nos habita e o que podemos fazer com isso.

Por Felipe Schwarz

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *