Algo que sempre me chamou a atenção na psicanálise foi que, para ela funcionar, é necessário que não haja julgamento.
Havendo julgamento por parte do psicanalista, o trabalho não irá para frente, pois o material necessário para esse trabalho é o que há de mais próprio, pessoal e único a cada pessoa.
Mas não é só do psicanalista que pode vir o julgamento: uma parte importante do trabalho analítico é diminuir o julgamento do próprio paciente que, acostumado com os discursos da vida cotidiana, estranhará a existência de um lugar onde o esperado é que ele fale o que vier à cabeça, sem filtros, eufemismos ou apaziguamentos.
A psicanálise é um dos poucos lugares em que somos convidados a retirar todas as máscaras que vestimos diariamente e lidar com o que se faz presente quando não as usamos.
Nesse retirar, muitas vezes descobrimos que as máscaras não estão lá só pelo bem dos outros: que silenciamos, apagamos e ignoramos questões que, para nós, são muito importantes e difíceis de resolver.
Questões estas que são de máxima urgência e que, mesmo que acreditemos deixá-las muito bem escondidas no fundo do baú, seguirão, sem sabermos, ditando os caminhos de nossa vida, nos levando a tomar determinadas escolhas e a produzir formas de sofrer que parecem tão alienígenas a nós — o que tanto se chama de sintoma.
Por essa vontade de apagarmos aquilo que incomoda, o caminho de uma análise costuma ser estranho: como vou resolver este sintoma, que tanto me atrapalha, falando dessas outras coisas que não têm nada a ver?
Pois elas têm tudo a ver!
Não é à toa que, quando pedimos a um paciente para falar livremente, sem julgamento, do sintoma que o traz até nós, psicanalistas, sempre há um toque no passado, em temas que se repetem e em determinadas questões — coisas que costumam parecer irrelevantes hoje, mas que estão ali, operando como o ponto de fuga da pintura que é a nossa vida, ditando o horizonte por onde tudo se orienta.
Uma análise, quando bem orientada, permitirá que o paciente sustente cada vez mais as questões que lhe são difíceis, sem as censurar de si mesmo, podendo então, através desse sustentar, pensar e agir sobre sua vida baseado no que realmente importa.
Por Felipe Schwarz