Como encontrar de volta o valor que não pode ser visto desde o início | O filme apresenta uma linha do tempo de seu personagem principal, A Casa. A casa da família retratada ao longo do tempo, apresentava um defeito de fabricação: uma rachadura cortava a parede, o que simbolicamente representa que alguma suscetibilidade em sua estrutura estaria presente ao se deparar com a vivência dos traumas ocorridos.

Nesta casa, a mãe do diretor Gustav se matou, depois de ter se despedido do filho que na época tinha sete anos e estava de saída para a escola. O menino volta porque esqueceu a bandeira do Dia da República, e essa volta é crucial porque neste momento ele tenta mais uma vez identificar ou impedir o sofrimento de sua mãe. Ela se mata enforcada depois da segunda saída do filho e aquilo que não foi dito, acolhido e cuidado, fica preso na linha do tempo e no desenvolvimento desta família a partir do trauma. A casa é a guardiã da memória onde, depois, em outros tempos, Gustav vai morar com a esposa, com quem tem duas filhas, Nora e Agnes.

Depois desta introdução, o filme passa a focar a atenção temporal na filha mais velha, Nora, atriz de teatro, muito identificada com o pai diretor de cinema. Logo no início do filme, assistimos à suacrise de pânico antes de entrar em cena, uma angústia que envolve o telespectador, porque entendemos que ela consegue representar um papel, mas, antes de encarnar outra pessoa, fica sufocada pela possibilidade de viver, mesmo que através do personagem. Ela pede para apanhar, ou transar, ela pede algo que a faça corporificar o personagem, algo que remonta ao um período muito arcaico. Fora do palco ela não consegue integrar os afetos que vive, a rachadura em Nora aparece em sua impossibilidade de viver o tempo presente entre o palco e a vida real. Nora, assim como a imagem que vemos da rachadura, carrega uma marca que a acompanha, ela se mantém como atriz, às custas de defesas encontradas no decorrer de sua existência, mas que a impedem de realizar um projeto de
existência futura.

Nora é apática, não consegue se relacionar, não construiu uma família, o teatro é a sua forma de expressão mais vívida, porém carregada de sofrimento. A irmã mais nova, Agnes, é historiadora, se casou e teve filhos, as duas estão agora reunidas para o velório da mãe, quando recebem o pai. Gustav retorna à antiga casa com um roteiro que aparentemente fala sobre o suicidio de sua mãe. Ele convida Nora para fazer o papel principal; o roteiro foi escrito para ela, porém pai e filha não conseguem conversar. Somos apresentados à infância de Nora e assistimos à repetição da impossibilidade do afeto entre seu pai e sua mãe; a filha escutava atrás da porta ao lado da irmã, as brigas dos pais, até que eles se divorciam e Gustav abandona o lar. As cenas da infância de Nora mostram a solidão, a falta de acolhimento, diante de sentimentos tão complexos e violentos. Ela busca se defender, se fechando emocionalmente, mas tem curiosidade em ouvir atrás da porta, ela escuta as sessões de sua mãe, que era psicóloga, ou as brigas de seus pais, em busca de algo que revelasse os afetos dos adultos.

Nora recusa-se a trabalhar no filme que seu pai planeja realizar. O roteiro que ele apresenta destinado à filha e que ela não lê, seria o veículo para uma compreensão do trauma vivido, mas não pode ser recebido pela filha porque ela não vê no pai um reconhecimento da sua individualidade. Gustav passou a vida tentando encenar seu trauma de infância, e através da arte elaborar a dor profunda de perder a mãe, que apesar de reencontrar o filho e ter uma segunda chance não enxerga nele valor suficiente para evitar que cometa suicidio. Nada foi falado verbalmente, mas tudo foi passado inconscientemente. O que Nora vive em sua vida adulta é um bloqueio em seu desenvolvimento, a partir da identificação com seu pai que inconscientemente lhe passa a dor do abandono vivido com a morte de sua mãe. O sofrimento de Nora é transgeracional; ela parece uma menininha em busca de respostas ao encontrar o pai, enquanto sua irmã mais nova foi em busca de resgatar os registros que revelam o trauma, em arquivos historicos; encontra a tortura que sua avó sofreu como presa política durante o nazismo. Agnes entende que seu pai foi o pai possível e o marido possível para sua mãe, embora isso não permita que ele seja invasivo em relação à sua necessidade de resolver o próprio abandono e assim se diferencie do que o pai projeta nas filhas.

Pausa para sair um pouco da Psicanálise e mencionar o que a meu ver o filme dentro do filme também procura abordar para além do trauma familiar gerado por uma sociedade nazista. Chama a atenção o título belíssimo do filme: Valor sentimental.

Vejo no filme uma ressignificação do que tem valor sentimental nos dias de hoje. Quanto vale a vida das pessoas, uma obra de arte, um filme, um objeto, uma casa? Acho que delicadamente Joachim Trier faz a sua crítica ao contexto atual; Gustav, ao ver seu roteiro recusado pela filha, atrai para o projeto uma atriz hollywoodiana. A atriz americana, em contraponto à sua filha atriz de teatro, permite que o filme seja financiado e provavelmente distribuído pela Netflix. Gustav e seus colegas de cinema não fazem um filme há quinze anos e a velhice é tratada como algo descartável. Em várias cenas vemos o diretor contrapor o que seria um projeto de valor sentimental ao que seria apenas um projeto de valor financeiro. No desenvolvimento paralelo ao trauma de décadas atrás, vemos um contexto social que também não valoriza os afetos e que também contribui para que tudo seja histriônico, porém pouco autêntico. A atriz americana ingenuamente é envolvida por Gustav, enganada facilmente por umbanquinho da Ikea que acredita ter sido o banquinho que a mãe de Gustav usou para se pendurar e se suicidar. Ela vira uma “certa piada” entre o diretor e suas filhas, procura aprender o sotaque nórdico, pinta o cabelo e exagera na carga emocional ao representar o sentimento de abandono que vive sua
personagem. Até que esta atriz desiste do projeto, adota uma postura ética diante dos afetos que reconhece serem direcionados à filha de Gustav e percebe que não tem como dar conta de algo tão pessoal e de tanto valor sentimental.

Em alguns momentos, a agressividade do pai perante a recusa de Nora em lhe dar a possibilidade de consertar a rachadura inicial vem carregada da ideia de que a atriz americana ganha dinheiro, banca os próprios projetos enquanto Nora não consegue parar de ter raiva do pai. É interessante notar como ao não reconhecer a filha como sujeito ele repete o trauma e a dor do abandono é revivida. Compreendemos, então, de forma didática, tratada por Joachim Trier, que o roteiro é sobre a mãe de Gustav, porém direcionado a libertar Nora do trauma herdado. O pai faz uma projeção em sua filha e faz ela reviver uma angústia perante o abandono que ele viveu ( inclusive, no filme Joachim Trier embaralha as imagens do pai com as filhas). O único recurso possível para Gustav foram os filmes, que ele fez ao longo da vida para tentar elaborar um trauma que o deixou paralisado na mesma cena da infância. Em um deles Agnes criança pôde representar o sofrimento da avó, mas ainda era preciso salvar Nora, ele como diretor e roteirista e ela como atriz, poderiam desbloquear os afetos reprimidos, refazer o laço, e esse seria por fim o valor do filme.

Quem faz a ponte entre pai e filha é a irmã mais nova, através de um relato muito bonito sobre ter uma irmã mais velha que pode cuidar dela quando não havia ninguém por perto e que, portanto, o contexto em que ela viveu e se desenvolveu foi completamente diferente da irmã que não tinha em quem se amparar. Perante o mesmo pai inoperante, graças à existência desta irmã, Agnes pode se desenvolver..

Ela agora pode retribuir os cuidados que recebeu de Nora, explicando que o roteiro havia sido feito para ela e que o pai, mesmo sem ter sido avisado sobre a tentativa de suicídio da filha, sabia do que se tratava a dor vivida por ela em sua mais profunda intimidade.

O filme acaba sendo produzido com a venda da casa que carregava toda a história da família, a casa cujo valor era contar o que foi vivido e marcar um tempo futuro para as pessoas que ali viveram. A casa é vendida e reformada para uma nova família, o que indica que a rachadura foi restaurada e não pertence mais à família original.

O filme é protagonizado por Nora, com a participação do neto de sua irmã, dirigido por seu pai, filmado e produzido por seus amigos idosos que o apoiaram durante este processo.

Happy end merecedor de Oscar de melhor filme estrangeiro.

Por Vera Moraes

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