A psicanálise é fundada a partir de uma premissa básica: deve-se falar sem julgamento! A última parte desta premissa, “sem julgamento”, é de enorme valor: quando há julgamento, tanto naquele que fala quanto naquele que ouve, o que há de realmente mais próprio a cada um não pode ser ouvido. E o que traz essa impossibilidade?

Essa impossibilidade vem da falta de espaço para que aquilo que foge ao comumente aceito possa tomar seu lugar.

Somos ensinados desde que nascemos, sabendo ou não disso, como se pode ou não falar, pensar, sentir e fazer. Estes ensinamentos nos penetram de forma tão profunda que para percebermos sua ação em nós muitas vezes precisamos nos treinar para ouvi-los ou, até mesmo, precisamos contar com um outro para nos apontar isso — como fazem os psicanalistas.

Mas, apesar desses ensinamentos, ainda assim cada um de nós articula suas formas de existência — o que Freud chamava de prazer — de uma forma singular, imprevisível e incerta.

Em certo momento de seu ensino Lacan propõe uma imagem que, a meu ver, cabe muito bem nessa situação: as ranhuras que a chuva faz numa montanha. Podemos conhecer a montanha, a chuva, a temperatura e o vento, mas são tantas as variáveis em jogo que dificilmente seremos capazes de prever as ranhuras que o cair da chuva causará nessa montanha. Ranhuras essas que estarão para sempre ali, formadas pela bater das gotas e guiando o escorrer da água que virá por uma vida inteira.

Mas se existem limites para o que é correto falar, pensar, sentir e fazer, qual a utilidade de notarmos como esses ensinamentos marcam nossa vida?

Por mais que se possa defender a existência de uma forma certa de existir, a verdade é que talvez essa forma não exista. Os estudos sociais e a historiografia nos permitem notar com clareza a maneira pela qual os limites do que é certo e errado estão em constante disputa e mudança. Não é isso que muito bem chamamos de política: a luta pela definição do que é certo?

Mesmo com tantos limites, cada um de nós se mostra profundamente influenciado por formas de existência — nossas criações singulares — que não são aceitas em nosso meio social e que, para podermos sobreviver, escondemos até de nós mesmos.

A proposta da psicanálise está no desvelar de nossas próprias formas de prazer e existência e na pesquisa de como podemos organizar essas formas de maneiras diferentes, brincando e desafiando os limites que nos são impostos desde sempre — permitindo a criação de um horizonte onde podemos, ao mesmo tempo, viver nossos prazeres e conviver em sociedade.

Freud mesmo dizia que nunca abandonamos um prazer. Resta a nós, então, descobrir o que fazer com ele.

Por Felipe Schwarz

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