Ao estudarmos a adolescência e suas implicações para a clínica psicanalítica, faz-se importante a distinção entre a puberdade, entendida como mudanças corporais provenientes da maturação biológica e a adolescência propriamente dita, relacionada a um acontecimento sociocultural de elaboração de um luto pelo corpo infantil e pelos pais da infância, assim como da construção de um novo lugar no laço social.
Em artigo que trata da clínica psicanalítica com adolescentes, Jucá e Vorcaro (2018) destacam que ao mesmo tempo em que a adolescência é um tempo de concluir, ou seja, de definir um modo de funcionamento psíquico na cultura, sem a mediação da família, também pode ser um período marcado por rupturas e desorganização daquela montagem subjetiva na qual se equilibrava o sujeito, sendo muitas vezes conhecida por ser uma fase difícil e problemática.
No que diz respeito ao corpo, este toma uma proporção privilegiada de expressão, onde estão registradas todas as memórias da infância, podendo inclusive se tornar o inimigo nesta fase. Em “Além do Princípio do Prazer”, Freud (1920) aborda a noção da vesícula protetora, ou seja, uma capacidade do organismo de filtrar quantidades desmedidas de estimulo, ou estímulos inadequados, que devem ser suficientes para se obter pequenas amostras do mundo. A depender do nível e da prevalência das sensações de desprazer, a tendência do aparelho psíquico é tratá-las como se viessem de fora, dando origem ao mecanismo das projeções, podendo-se então aplicar a estas sensações internas os meios defensivos de proteção contra estímulos (Freud 1920 p. 75).
Conforme Cidade & Zornig (2021), uma carga pulsional excessiva ocasiona um transbordamento das possibilidades psíquicas de representação e o sujeito pode recorrer a ação para retomar algum controle. Nas autoagressões, por exemplo, esta ação está impedida de ser direcionada para o exterior e, como um dos destinos da pulsão, volta-se contra si mesmo. Ou seja, quando não há reconhecimento quanto ao sofrimento do adolescer e, portanto, não há espaços de fala ou outras formas de expressão que possam auxiliá-los na elaboração da construção de uma nova identidade no laço social, a marca no corpo vem para comunicar algo.
Segundo Dolto (2004), os tempos atuais são marcados pela ausência da transmissão simbólica que circunscreviam através de diversos ritos de passagem, a travessia entre a infância e a fase adulta. Em diversas sociedades tradicionais a passagem do tempo e as mudanças de status e representação social são demarcadas em rituais que asseguram a transmissão simbólica e o reconhecimento por aquele determinado grupo, de acordo com a sua cosmologia.
Utilizando-se da metáfora do “barqueiro solitário”, Dolto (2004) afirma que os jovens de hoje precisam fazer esta travessia solitariamente, dando a si mesmos o direito de passagem, o que requer uma conduta de risco. A adolescência se tornou então um estado, um sentimento, que se prolonga a depender das projeções que os adultos colocam no adolescente e dos limites exploratórios que a sociedade impõe. Ou seja, neste processo, não há adolescência, mas etapas que vão transformar as crianças em adultos e os critérios que definem a maturidade social diferem de uma sociedade para outra (Le Breton, 2017 p. 26).
Em suma, a adolescência, como acontecimento sociocultural, se consolida como um período crucial de reinvenção da subjetividade e, sob a ótica da psicanálise, este processo exige um trabalho de elaboração psíquica a partir dos recursos oferecidos culturalmente, e, portanto, longe de ser apenas uma crise biológica, a adolescência é uma travessia psíquica necessária para a fundação de um desejo próprio e singular.
Referências:
Cidade, N. O. P. & Zornig, S. M. A. (2021) Automutilações na adolescência: reflexões sobre o corpo e o tempo. Estilos da Clínica.
Dolto, F. (2004) A causa dos adolescentes / Françoise Dolto. Trad. Orlando dos Reis Aparecida – SP: Ideias e letras.
Freud, S. (2016) Além do princípio do prazer (1856 – 1939) / Sigmund Freud; trad. Do alemão de Renato Zwick; 1 ed. – Porto Alegre. RS: L&PM.
Jucá, V. dos S. & Vorcaro, A. M. R. (2018). Adolescência em atos e adolescentes em ato na clínica psicanalítica. Artigos originais • Psicol. USP 29 (2) • May-Aug. DOI: https://doi.org/10.1590/0103-656420160157
Le Breton, D. (2017). Uma breve história da adolescência / David Le Breton. Tradutores: Andréa Martins Campos Guerra… [et al]. Belo Horizonte: Editora PUC Minas.
Autora: Priscila Galvan Serqueira
Psicóloga e Psicanalista