Sigmund Freud, em seu texto “A Dinâmica da Transferência” (1912), argumenta que a transferência é um fenômeno relacional presente nas interações entre indivíduos, que transcende o ambiente terapêutico e é universal. Embora seja uma expressão de amor, no contexto da análise, o analista deve abster-se de tornar-se objeto da relação, suspendendo seu narcisismo. Ele enfatiza que cada ser humano desenvolve uma maneira singular de gerenciar seus relacionamentos amorosos, o que possibilita criar condições para o surgimento do amor.

Com base nesse entendimento, Freud estabelece que essa maneira única de se relacionar é constantemente repetida por meio da transferência (1912). Os afetos são frequentemente revividos na tentativa de reexperimentar os padrões amorosos estabelecidos com novas figuras na vida do sujeito. Diante dessa tendência neurótica, Freud observa que é compreensível que esses afetos sejam dirigidos ao analista, já que, durante a associação livre, o sujeito comumente inclui o psicanalista em suas fantasias, idealizando essa relação e atribuindo-lhe sentimentos de amor e ódio. Nesse sentido, é crucial que o psicanalista afaste seu narcisismo e compreenda que esse direcionamento não se refere a ele, mas sim à construção neurótica e fantasiosa do sujeito sobre a dinâmica relacional.

Lacan, em seus escritos, destaca que a relação entre analista e paciente é crucial e pode exercer grande influência no processo analítico, uma vez que é o psicanalista quem orienta o tratamento, ainda que não dirija o paciente. Esse direcionamento consiste essencialmente em encorajar o paciente a seguir a única regra da psicanálise: falar livremente, sem restrições – ou seja, falar em associação livre (1958). O analisando pode buscar outras formas de orientação além da livre associação e pode demandar do analista interpretações, respostas ou direcionamentos. Cabe ao analista ter cautela em suas intervenções, tanto no modo como são feitas quanto na frequência com que ocorrem, uma vez que é impossível prever seus efeitos. Existe o risco de cair na armadilha das interpretações selvagens ou de permitir que a relação perca sua essência analítica.

A falta de resposta à demanda do paciente também tem seus efeitos, pois o analisando buscará no olhar, nos movimentos ou em qualquer reação do analista uma forma de sustentar sua fantasia. Nesse sentido, a inexpressividade do analista é importante para que o analisando não tire conclusões ou interpretações precipitadas a partir de sua figura. Lacan (1958) afirma que “os sentimentos do analista só têm um lugar possível nesse jogo: o do morto; e que, ao ressuscitá-lo, o jogo prossegue sem que se saiba quem o conduz” (p. 595). É importante destacar que o analista não precisa ser uma estátua, pois, sendo uma relação, o inconsciente do analisando se manifesta em sua fala, o que produz efeitos no setting terapêutico e no próprio analista.

Quanto à necessidade de interpretar expressões faciais, gestos e agitação, há diversas considerações a serem feitas, até que ponto uma interpretação pode ser agressiva e prejudicial. Se o analisando não consegue, por si só, compreender o que está dizendo e repetindo, é crucial que o analista mantenha sua posição e aguarde até que isso ocorra – reconhecendo que talvez nunca aconteça. Nesse sentido, é essencial confiar na capacidade do analisando de alcançar essa compreensão, em vez de apenas responder à demanda por interpretação de forma superficial. Lacan sustenta que o ato de interpretar

é apenas efeito das paixões do analista: de seu receio, que não é do erro, mas da ignorância, de sua predileção; que não é satisfazer, porém não decepcionar; de sua necessidade, que não é de governar, mas de ficar por cima. Não se trata, em absoluto, da contratransferência deste ou daquele: trata-se das consequências da relação dual, caso o terapeuta não a supere – e como haveria de superá-la, se faz dela o ideal de sua ação? (LACAN, 1958, pp. 601-602)

Novamente, ressalta-se aqui a importância de o analista não transformar a análise de seu paciente em um meio para satisfazer seu narcisismo, e que a principal base de segurança na relação analítica é a transferência. Pois, uma vez bem estabelecida, a necessidade do paciente por interpretação diminui, mas não desaparece completamente, já que essa necessidade também é uma condição de sustentação da análise (LACAN, 1958).

No Seminário 11, Lacan (1964) faz outros apontamentos sobre a transferência. Inicialmente, ele lembra que a transferência pode ser tanto positiva quanto negativa, mas alerta que a positiva não se limita ao amor, e a negativa não deve ser simplificada como ódio. A transferência positiva ocorre quando o analisando tem uma boa consideração pelo analista, enquanto a negativa se manifesta quando o paciente desenvolve aversão a ele (p. 124). Lacan sustenta que o conceito de transferência é o que determina a abordagem do tratamento e que é a prática clínica que define o conceito – ou seja, a clínica orienta o conceito, e não o contrário. É essencial que o analista esteja atento a esses sinais, pois eles representam uma oportunidade para o desenvolvimento da análise.

Em síntese, a transferência não só regula o tratamento como também possibilita avanços na compreensão das construções fantasiosas do paciente, de suas resistências e neuroses. Seu manejo exige do analista uma postura ética que evite a satisfação narcísica, mantendo-se como um “morto” no jogo transferencial, conforme propõe Lacan. Dessa forma, a análise pode florescer como um espaço autêntico de desvelamento do inconsciente e de respeito ao sintoma, no qual a demanda por interpretação coexiste com a necessária suspensão das respostas fáceis.

Por Clayton Ulisses Silveira

REFERÊNCIAS FREUD, Sigmund (1956-1939). A Dinâmica da Transferência (1912). In: Observações sobre um caso de paranoia relatado em autobiografia: (“O caso Schreber”): artigos sobre técnica e outros textos (1911-1913) – São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

LACAN, Jacques (1901-1981). A Direção do Tratamento (1958). In: Escritos – Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

LACAN, Jacques (1901-1981). A Transferência e a Pulsão (1964). In: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise – Rio de Janeiro: Zahar, 2008.