Ainda na fase inicial da constituição da psicanálise, uma das pacientes de Freud, pediu que ele a deixasse falar livremente, sem interrupções. Esse pedido reflete, o quão importante é para o sujeito, ser ouvido, em seu singular modo de sofrer.
A escuta em análise transforma porque ela é diferenciada, podemos usar como exemplo um texto de Rubem Alves, que ilustra um modo diferente de escuta. O texto se chama ESCUTATÓRIA, no qual ele fala: “Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito, é preciso também que haja silêncio dentro da alma.”
Cada analista mantém consigo, um interesse verdadeiro em conhecer a história de alguém que lhe procura, além da vontade de compreender sua complexidade subjetiva, e única. No momento da análise, o analista “silencia sua alma”, esvazia-se de si e se concentra apenas em compreender o discurso que se manifesta. Porque nenhuma técnica é mais relevante do que uma escuta interessada.
No livro Cartas a um jovem terapeuta, o psicanalista Contardo Calligaris, relata sua experiência ao atender seu primeiro paciente. Ele comenta como organizou o local do atendimento e as preocupações que sentia naquele dia, sendo a principal delas, a de não demonstrar que era seu primeiro atendimento.
Este paciente permaneceu em análise com ele por sete anos e após o término de seu tratamento, contou a Calligaris que quando pediu indicação de um analista, fez um pedido. Queria que este analista fosse um debutante, do qual ele seria o primeiro paciente, pois julgava seus problemas muito banais e acreditava que só um iniciante o ouviria com tanta atenção. “Gostaria de poder dizer que ele estava enganado, que durante todos esses anos, escutei meus pacientes com a mesma paixão”, reflete o autor.
Assim deve se sentir uma pessoa que busca análise, sentir que está sendo ouvida com paixão, e compreendida, em suas palavras e silêncios, no seu choro, no riso, nos atos falhos e esquecimentos. A articulação entre a fala do sujeito e a escuta do analista é que vai conduzir a simbolização das questões afetivas que causam sofrimento.
Por Márcia Costa
Referências
Alves, R. Escutatória. Disponível em: https://www.inf.ufpr.br/urban/20191_205_e_220/205e220_Ler_ver_para_complementar/RubemAlves__Escutat%C3%B3ria.pdf
Calligaris, C. (2021). Cartas a um jovem terapeuta. (2ª ed.). São Paulo: Planeta.
Breuer, J & Freud, S. (1893-1895). Estudos sobre a Histeria. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. [ESB]. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
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