Sinto que muitas das pessoas que me procuram sentem vontade de me fazer esta questão em nosso primeiro encontro: “Falar resolve alguma coisa?”. Algumas até têm a coragem de fazê-la.
Uma questão muito válida em nosso tempo, em que estamos acostumados a tratar as coisas de maneiras que não envolvem o falar: com o toque do médico, com o efeito do remédio, com o ato de comprar, entre muitas outras possibilidades.
Curiosamente, as pessoas que me procuram sem fazer essa questão costumam me contar sobre como já tentaram de tudo, mas existe algo ali que não para de doer. Um sofrimento que insiste e persiste.
Falar nunca é simplesmente colocar palavras para fora, e é precisamente nisso que está seu poder de cura.
Falar é tomar uma posição diante de tudo que existe, tudo que se sente, tudo que se deseja ou se teme. Falar é decidir como será organizada uma série de coisas que sozinhas não contam história alguma, não trazem sensações específicas, mas que, quando ordenadas, são capazes de trazer prazer, angústia, tristeza ou ódio.
Uma mesma série de acontecimentos, a depender da ordem e forma como se conta, pode ser uma história de sucesso ou uma história de fracasso. Uma mesma vida pode ser contada como uma grande tragédia, que justifica a impossibilidade de seguir em frente, ao mesmo tempo que pode ser contada como a razão pela qual é impossível ficar parado, motivando uma vontade de sempre seguir em frente.
É nisso que está a proposta da terapêutica psicanalítica: por meio da fala, recontar quantas vezes for preciso as mesmas histórias, até que nelas seja possível ver novas saídas, novas formas de sentir e novas formas de viver.
Por Felipe Schwarz