A resposta é bastante simples: diferentemente desses outros campos do saber e do fazer, o objeto com o qual a psicanálise trabalha é o inconsciente — enquanto a psicologia se ocupa do comportamento e dos processos mentais (consciência), e a psiquiatria atua sobre a química e a biologia corporais.

E o que é o inconsciente?

O inconsciente é uma forma de conectar coisas, conectar vivências, afetos e experiências corporais. Conexão, essa, que se dá por meio das palavras e dos sons.

Conexões, essas, que não seguem uma lógica comum, cotidiana e facilmente identificável ou decifrável. Conexões que vão aparecendo conforme o paciente fala sobre si mesmo, sobre o mundo e as coisas, que aparecem até quando se evita falar delas — pois basta falar para que elas se mostrem, não importa do que se escolha falar.

Conexões que podem emergir na repetição constante de uma palavra, de um som, ou em um ato falho — que é a troca de uma palavra por outra, que cotidianamente pode ser tomado como desatenção, mas que, no consultório de um psicanalista, não é nada disso, sendo, na verdade, o sinal de uma conexão, de que há ali, naquelas palavras que foram trocadas, um ponto de convergência, de encontro, onde uma coisa influencia a outra.

É comum acreditar que os sonhos são dominados pela aleatoriedade e pela falta de sentido, mas, na verdade, eles são ótimos exemplos dessas conexões das quais venho falando. Para a psicanálise, os sonhos são o lugar onde os diferentes sentidos podem correr livremente, mostrando que estão, de alguma forma, conectados, e que nessa conexão criam uma história. Uma história que, fora dos sonhos, guia a vida das pessoas, sua maneira de gozar do mundo e sua maneira de sofrer também.

E o psicanalista trabalha para desvelar e intervir nessas conexões, através dos mais diversos tipos de intervenções possíveis, todas centradas nas palavras e nos sons — no falar.

Usemos de um exemplo para deixarmos as coisas menos vagas e misteriosas.

Pensemos em uma pessoa que sofre por comer demais — que segundo a psicopatologia poderá ser rotulada como alguém que vive com Transtorno da Compulsão Alimentar.

Um psicólogo, provavelmente, tentará descobrir qual o lugar do comer na vida daquela pessoa, o que acontece antes dos episódios em que ela come em excesso, identificando as sensações e sentimentos que causam esses momentos, e tentando ensinar a ela outras formas de lidar com essas sensações e momentos, seja através de sugestões, tarefas de casa ou técnicas. Lida-se, aí, com o aspecto consciente do problema, com o resultado do que as conexões inconscientes produzem.

Já um psiquiatra, provavelmente, receitará uma combinação de remédios voltados à diminuição da vontade de comer daquela pessoa, alterando quimicamente a resposta que ela dará aos momentos que causam a compulsão alimentar.

A psiquiatria costuma ser a via mais rápida para resolver um sofrimento mental, mas tem seus custos: é bastante comum que um novo sofrimento apareça, como se o fechar de uma porta, com o remédio, abrisse, com o tempo, obrigatoriamente uma janela. E não é nada incomum, também, que os remédios tragam efeitos colaterais, como a queda na libido, o sentimento de desconexão com o mundo ou a diminuição dos ânimos.

Enquanto isso, no divã do psicanalista, essa pessoa será posta a falar, e nesse falar, inevitavelmente irá tocar em coisas que dizem respeito a esse comer em excesso, quais palavras são relacionadas a isso, quais sentimentos, quais vivências, quais sensações. E nesse falar — que se fala, fala de novo e mais uma vez da mesma coisa, que sempre se mostra mais complexa do que na última vez que foi dita — poderá se notar que existem muitas conexões entre coisas que não pareciam em nada ter a ver umas com as outras.

Conexões que, conforme são ditas em voz alta, apontadas e escutadas, vão, aos poucos, se desfazendo e dando espaço para novas coisas, novas criações, criações para as quais o psicanalista apenas abre espaço, pois não escolhe o que virá no lugar.

Essa é uma parte bastante importante do fazer psicanalítico: o psicanalista se abstém de colonizar o sofredor com suas próprias soluções, apostando que serve melhor a cada um criar seus próprios caminhos e conexões, acreditando que tudo que foge a isso acaba sendo tentar forçar uma pessoa a se sentir confortável em uma caixa que não tem suas medidas.

E nesse abrir espaço, nesse desfazer das conexões que antes existiam, a pessoa que sofre por comer demais poderá se ver fazendo outras coisas, dando outras direções para seus sofrimentos e prazeres, direções que poderão não ter mais a ver com uma compulsão alimentar.

Me parece, então, possível afirmar que tanto a psicologia quanto a psiquiatria tentam lidar com o resultado dessas conexões, sem nada saber da origem delas, sem nada saber do inconsciente. Já a psicanálise faz o caminho oposto, trabalhando as conexões, o inconsciente, e nisso pode ver, com o passar do tempo, o sofrimento do paciente se transformar em outra coisa.

por Felipe Schwarz