Quem já tentou iniciar um tratamento psicanalítico se lembrará de como foi difícil não só dar o primeiro passo, mas também manter-se em análise. É como se houvesse uma resistência muito grande, que às vezes se manifesta pela sensação de que não será possível arcar com os custos das sessões, ou de que aquele analista talvez não seja a pessoa certa para o trabalho, ou até de que aquele problema que vem causando adoecimento pode esperar mais um pouco para ser resolvido.
Há algo em jogo quando isso acontece: nosso horror a saber do nosso próprio inconsciente!
E por que temos esse horror?
De um lado, temos a tentativa de manter nossa noção de “eu” intacta. Uma história que criamos e seguimos aprimorando até hoje: quem somos, o que queremos e para onde vamos. Uma história que constantemente é abalada por acontecimentos internos e externos a nós, mas que prontamente damos um jeito de remendar quando isso acontece. Uma história que traz um senso de tranquilidade em meio a todo caos que é estar vivo. Uma história que durante um processo analítico é cuidadosamente desmontada, nos levando a encarar o fato de que somos uma criação ficcional de nós mesmos e de alguns outros. E os desmontes podem ser assustadores: nunca sabemos se será possível colocar tudo no lugar depois.
E não é porque esse “eu” é uma criação, uma ficção, que ele se torna menos verdadeiro. Ele é fundamental para nossa existência no mundo! É a partir dele que reunimos tudo o que nos constitui como nós mesmos e somos capazes de dizer que somos algo e de nos relacionarmos com os outros.
Sem ele, não conseguiríamos sequer sustentar uma conversa sem ficarmos perdidos em meio a tantos sentimentos contraditórios que nutrimos ao mesmo tempo por aquela pessoa. Também seria muito difícil decidirmos o que fazer com nossa vida, já que não haveria nada que desse coesão a todos os caminhos que nos atraem. Como decidiríamos seguir uma profissão diante de tantas possibilidades?
Na clínica, quando se pergunta a um médico, por exemplo, por que ele é médico, é bastante comum que ele diga uma série de coisas: experiências que lhe tocaram ao longo da vida, pessoas que conheceu, filmes que viu, livros que leu, além de algumas vontades, como a de ajudar os outros e talvez até a de se sentir importante. Esse “eu” é o que permite juntar tudo isso e decidir pela medicina. Essa não é uma escolha óbvia: todas essas coisas poderiam ter se combinado para formar um professor ou um assistente social — mas o “eu” dessa pessoa apontou para o caminho que leva à medicina.
Do outro lado, por sua vez, tentamos a todo custo proteger nosso desejo — aquilo que pulsa em nós, nos levando a percorrer os caminhos da vida, mesmo que esses caminhos não sejam marcados pelo prazer o tempo todo. O desejo é aquilo que nos leva a buscar as coisas, mesmo sem termos ideia do que buscamos e do porquê. É aquilo que existe de mais íntimo e único em cada um, aquilo que faz com que pessoas de uma mesma cultura, de uma mesma língua, de um mesmo tempo e até de uma mesma família sejam diferentes entre si, singulares.
Em um processo analítico, estamos sempre provocando para que esse desejo se mostre nos sonhos, nas palavras, nos atos falhos e na voz. Trata-se de um mostrar que coloca em perigo todos os caminhos já estabelecidos para a realização desse desejo, o que traz um enorme medo de não sermos mais capazes de criar novos caminhos, quando estes antigos desmoronarem por agora sabermos que eles existem e que talvez não funcionem tão bem assim. É um medo que parece bastante justo quando resumido: o medo de perder nossa capacidade de desejar, de perder aquilo que nos move.
Em suma, nosso horror ao inconsciente vem do medo de perder aquilo que, por mais que esteja funcionando mal e nos adoeça, ainda assim funciona. Vem também do medo de descobrir o que há por trás de tantas construções que fizemos ao longo da vida — e se descobrirmos que também somos algo que não gostamos? Ou que não queríamos o que buscamos até hoje? E vem do medo de que, mexendo demais naquilo que somos, tentando descobrir como funcionamos, possamos perder aquilo que nos move, que nos traz vida.
Mas será que realmente há outro caminho, quando as coisas vão mal, quando o adoecimento bate à porta, a não ser encarar esse medo e enfrentar um processo desses, de reconstrução de si?
Por Felipe Schwarz