A vida no mundo contemporâneo exige atenção constante como nunca antes.

Somos convocados o tempo todo a não perder nada do que acontece à nossa volta, seja no trabalho, em casa ou até nos momentos de lazer.

Junto a isso, nasce uma nova forma de sofrer: a vida passa num piscar de olhos e não há muito a se falar sobre ela.

Por que isso acontece?

Estar em permanente estado de atenção limita profundamente a capacidade que temos de transformar nossa vida em história. Apenas viver não cria nada — para haver história, é preciso que aquele que vive pense sobre si mesmo, sobre aquilo que acontece à sua volta e sobre os outros que o cercam ou cercaram no passado.

Por mais bobo que pensar a si mesmo possa parecer, não o é. Articular seu passado com seu presente possibilita a construção de um futuro não tão incerto.

Antigamente, havia muitos momentos para se fazer isso. Houve épocas em que o trabalho não consumia tanta atenção do ser humano. Onde o ócio era possível frequentemente. Onde as pessoas se reuniam para contar sua história e a de seus antepassados uma para as outras. Uma época em que devanear — sonhar acordado — era algo corriqueiro. Um momento em que o tempo livre era realmente livre, não apenas um breve espaço em branco em uma agenda lotada.

Não me parece qualquer coisa que a psicanálise tenha surgido após estas mudanças na forma com que nos relacionamos com nós mesmos. Grande parte do esforço psicanalítico gira em torno da retomada disso que se perdeu com o tempo: ter em vista o passado, enquanto se pensa seu presente e, inevitavelmente, se imagina e constrói seu futuro.

A psicanálise acaba por recriar isso que se perdeu: um espaço onde o importante é você e sua história. Um lugar onde o tempo que importa não é o do relógio, mas sim o seu próprio. O tempo de seu falar, o tempo de ouvir a si mesmo e o tempo de compreender o que se passa, sem ser esmagado pelo mundo à sua volta.

Por Felipe Schwarz