Você já percebeu como uma palavra pode fazer a gente se enxergar diferente? Tem frases que marcam profundamente, como se só depois de ouvi-las a gente passasse a existir de outra forma: somos nomeados, tocados por elas.

Relendo “Quem ela era”, de Clarice Lispector, uma cena me atravessou. A personagem só se reconhece quando escuta: “eu te amo”. Esse dizer não apenas descreve — ele tem um caráter criador: dá forma, abre um lugar no qual ela pode se ver como alguém que é amada.

Nesse contexto, o que está em jogo não é apenas uma palavra qualquer. Na psicanálise, chamamos isso de significante: um som que afeta o sujeito e ganha sentido pelo efeito que produz. Diferente da palavra, o significante não tem um significado fixo, como num dicionário.

Significantes como “eu te amo”, “sinto saudade”, “errado”, “me desculpa”, “incapaz” podem criar laços, transformar relações, podem também nos machucar, a depender das relações que cada um fará a partir deles. Mesmo sem perceber, vamos nos prendendo ao que um dia ouvimos dizerem sobre nós.

Lacan nos mostra que a linguagem nos antecede. Antes mesmo de nascermos, já estamos dentro de discursos que nos nomeiam: “milagre”, “problema”, “esperado demais”. E, ao longo da vida, mais significantes se acumulam — alguns fundam, outros ferem.

Às vezes, esses significantes se fixam demais… deixando de ser marcas passageiras e se tornando rótulos: “você é assim”, “sempre foi”. Isso pode nos aprisionar, moldar e limitar os modos possíveis de nos enxergarmos e de nos relacionarmos com o mundo.

Na psicanálise, escutamos esses significantes que se repetem. Não para trocá-los, mas para criar um espaço em que possam se deslocar. Com isso, algo novo pode surgir — como no texto de Clarice, no qual um simples “eu te amo” abre a chance de existir de um outro modo.

Por Ray Santos

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