“Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta, continuarei a escrever.” A frase, atribuída ao narrador Rodrigo S. M., de “A hora da estrela”, de Clarice Lispector, aponta para a escrita como ato de insistência, como modo de lidar com o indizível, com o que escapa à significação. Escrever, nesse contexto, além de ser uma tentativa de preencher o vazio, é reconhecer a presença dele e a sua função estruturante no sujeito.

Não conseguindo nomear exatamente tudo que sentimos, experenciamos, seguimos escrevendo, escrevendo… bem como Rodrigo S.M., sempre se deparando com algo que falta, com algo a mais a ser dito/escrito.

Quem procura um analista, muitas vezes, não sabe exatamente o que quer dizer, no entanto, sente que precisa falar, e é ao falar que algo começa a tomar forma. Nem tudo se esclarece de imediato, porque há um intervalo entre o que se pensa, o que se sente e o que se consegue colocar em palavras. É nesse intervalo, nesse “não dito”, nessa hiância que o trabalho analítico acontece, visto que algo se escreve ali, mesmo sem intenção, mesmo sem saber.

A escuta do analista, como a escrita de Rodrigo S. M., se sustenta nesse campo da pergunta sem resposta definitiva. Por isso, na clínica, o analista escuta o que insiste, o que se repete, o que escapa. Assim como na literatura, na análise também seguimos escrevendo com a fala, com os silêncios, com as marcas deixadas por cada sessão.

Esse movimento nos marca, nos convoca à escuta de nós mesmos, nos desloca e nos abre à possibilidade de mudança.

Por Ryan Santos