A criança não pode mais ser vista como um “adulto em miniatura” (Ariès, 1981), nem como um estágio incompleto. A infância faz parte de um estágio no qual o sujeito se constitui na linguagem (Lacan, 1957/1958). Forçar papéis adultos pode limitar sua forma singular de brincar, inventar e experimentar.
“O infantil” não equivale à imaturidade. Freud (1908/2015) demonstrou que a infância é marcada, de modo mais evidente, pelas fantasias, que auxiliam a criança a lidar com os desejos e com as experiências cotidianas. Nesse movimento, ela brinca, fantasia e cria mundos próprios.
Quando a criança é levada a ocupar papéis adultos, instaura-se o processo de adultização. Esse processo se caracteriza por autonomia precoce, erotização e cobrança por desempenho. Nesse contexto, em vez de escutá-la, o adulto passa a exigir que ela “dê conta” de experiências próprias do universo adulto.
Tratar a criança como “miniadulto” antecipa uma imagem de perfeição e de competências rígidas. Essa antecipação impede que a criança viva o tempo de crescimento, elabore suas experiências e a sobrecarrega com cobranças excessivas.
Na análise ou psicoterapia, o foco não é adaptar a criança à norma. O trabalho consiste em escutar o que ela comunica e abrir espaço para soluções próprias diante das demandas da família, da escola e da sociedade.
Proteger a infância significa oferecer linguagem, limites e cuidado. A criança precisa brincar, experimentar e falar, sem ser convocada ao mundo adulto.
Por Ray Santos
Referências
ARIÈS, Philippe. História Social da Criança e da Família. 2. ed. Rio de Janeiro: LTC, 1981.
FREUD, Sigmund. O poeta e o fantasiar. In: FREUD, S. Arte, literatura e os artistas. Belo Horizonte: Autêntica, 2015. (Obra original publicada em 1908).
LACAN, Jacques. O Seminário, livro 5: As formações do inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999. (Obra original de 1957/1958).