Desde o princípio de minha prática, o foco de minha clínica foi a escuta do sofrimento LGBTQIAPN+. Movido por experiências pessoais, me interessei pela descoberta do que tornava tão comum a aparente inabilidade de alguns clínicos em trabalhar com essa forma de sofrimento.
A princípio, pude notar como a escuta desse sofrimento costuma girar em torno de vidas que tiveram pouco espaço para florescer. Falo de pessoas que foram, em sua maioria, apresentadas somente a horizontes hetero e cissexuais de existência.
Pessoas que, muitas vezes, para sobreviver, precisaram abraçar aquilo que parecia não lhes caber em nada. Que, frequentemente, acabaram por esconder aquilo que lhes era mais próprio, pois mostrá-lo poderia colocar em risco suas relações, seja com família ou amigos, a garantia de emprego, alimento e moradia e até mesmo sua integridade física.
Onde, em tantas psicanálises, encontramos uma paisagem com diversas construções e o desafio está em descobrir o que precisará ir abaixo e o que permanecerá, na clínica do sofrimento LGBTQIAPN+ encontramos um terreno devastado, populado com escombros e construções precárias, que nunca realmente couberam ali.
Este me parece ser o grande desafio desta clínica — algo presente em toda psicanálise, mas não nessa intensidade — a criação de um espaço onde o florescimento é possível em sua maior potência.
Um espaço que possa sustentar, a partir do não julgamento, uma criação pujante: que poderá permitir a descoberta do que é ser LGBTQIAPN+ a partir do que é mais próprio a cada sujeito; que poderá permitir a descoberta de seus verdadeiros prazeres e, por fim, que poderá permitir a criação de novas formas de ser, amar e estar no mundo.
Por Felipe Schwarz