No atendimento de pessoas com organização borderline, a clínica costuma girar em torno de um paradoxo delicado: um desejo intenso de proximidade, cuidado e reconhecimento que convive com um medo igualmente forte de ser invadido, dominado ou perder a própria consistência subjetiva.

Em uma leitura inspirada em Winnicott, essa oscilação pode ser compreendida como efeito de experiências precoces em que o apoio emocional foi instável, excessivo ou insuficiente, dificultando a construção de um sentimento contínuo de si. Assim, o outro é buscado como fonte de sustentação, mas também vivido como potencialmente ameaçador.

É nesse ponto que a adaptação ao paciente torna-se especialmente fecunda. Não se trata de abandonar a estrutura da situação analítica, mas de sustentar uma posição clínica marcada pelo tato, pela atenção às zonas mais sensíveis do sujeito e pela capacidade do analista de manter uma presença sem excessos.

Nesse sentido, criar vínculo não significa apressar a intimidade, mas permitir que a relação se construa pouco a pouco, de modo que a experiência analítica possa ser sentida como suficientemente próxima, sem ultrapassar limites vividos como ameaçadores.

Por Paula Alves

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *