Escrever implica alguma perda.

Por isso, uma escrita, digo aquela investida subjetivamente, não acontece de forma tão simples.

Para escrever(se) e publicar, é preciso deixar algo para trás. E, deixar algo para trás, não acontece sem algum desamparo. Aliás, escrever desampara tanto quanto pode amparar e muitas vezes, numa mesma batida.

Quem escreve não fica somente no desamparo. Escrever, por si só, é também tecer uma vestimenta que seja própria. Se perde ou se despe na escrita, não sem ir tecendo uma roupa nova. Às vezes, se começa a escrever com o frio do desamparo e, uma história, um conto ou um poema, viram aquela lã, o cobertor que faltava e que aquece. Ao final de uma escrita, ou se está aquecido, com uma ‘boa vestimenta’, ou pode se estar nu.

Esse último evento acontece quando é possível experienciar uma escrita (de si) até as suas últimas e improváveis consequências. Ir além na escrita é como ir além da angústia, topando um encontro com o imprevisível, com o insabido de si. Às vezes, com o inconcebido de si.

É o que acontece com a liberdade que a imaginação ganha através de uma escrita. Ou seja, a criação vem do crianção, aquele que pode se atrever e se expressar com menos amarras e mais invenção. Aquele que se preservou vívido em cada um.

E, que bom quando o crianção pode mostrar a que veio. Havendo implicação, toda escrita pode ser uma obra. (Obra-prima de algum si)

Por Beatrice do Valle

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