Renata Velozo


Os celulares são ferramentas de
conexão que abrem a possibilidade
de unir pessoas que estão distantes.


O ano era 2002, a cidade, Nova Friburgo, Região Serrana do Rio de Janeiro. Em um corredor comprido de um prédio amplo, com janelas largas e salas vazias, uma fila imensa de pacientes e familiares aguardava diante de duas pequenas salas – as únicas ocupadas, as da psiquiatria.


Dois médicos psiquiatras atendiam apenas 20 fichas por dia, uma para cada consulta. Pessoas vinham de todas as partes do município na esperança de conseguir uma delas, uma daquelas fichas. O atendimento era demorado. Os pacientes aguardavam ansiosos, alguns andando de um lado para o outro, outros em crise aguda. Muitas vezes, cenas difíceis atravessavam aquele andar, familiares em revolta, tristeza e espera infinita. Como psicanalista, eu reconhecia um grito surdo na garganta, daqueles que acompanhavam as pessoas em sofrimento mental, – “eu quero que meu filho seja medicado!”

Naquele tempo, a única resposta possível era a medicação e a internação no hospital de reclusão. A este cenário, pensei que algo poderia mudar, caso aquelas outras salas amplas, de JANELAS largas, pudessem refletir a luz do sol e trazer esperança para aquelas pessoas.

E assim iniciamos, eu, um terapeuta ocupacional e uma caixinha de materiais coletados na Secretaria de Saúde. Eram alguns pincéis, tintas, papéis e canetinhas hidrocores. Fomos até uma daquelas salas e começamos a convidá-los para entrar. Enquanto os pacientes se envolviam com as atividades, na outra sala, eu chamava os familiares para conversar.

Logo a assistente social do Posto, se uniu ao grupo e trouxe a importante notícia: havia sido promulgada a Lei 10.216, que abria caminho para novas formas de tratamentos para o cuidado em saúde mental, alternativos à internação em hospital psiquiátrico. As famílias gostaram de adquirir aquele conhecimento. Logo o grupo se organizou e na outra semana, trouxeram suco, bolinho e lanches. Todo o processo da Reforma Psiquiátrica Brasileira teve como protagonismo, os familiares, que passaram a sonhar com um tratamento digno, multidisciplinar, próximo de casa – com liberdade, inserção social e autonomia..

Na Sociedade Pestalozzi de Nova Friburgo, observei que também ali, a presença dos familiares era fundamental para o cuidado de seus filhos com necessidades especiais. Eles tinham muito a me contar. Percebi que ao escutá-los, algo se movia com a minha presença. Falavam sobre rejeição, preconceito e dor. Como voluntária, a aposta era abrir espaço para a construção de novos laços e para a aceitação das diferenças.

Na minha jornada, após exercer a coordenação de saúde mental da cidade e passar no concurso de 2007, fui implantar Grupos Terapêuticos no Posto de Saúde Silvio Henrique Br aune, perto da praça do teleférico.

Em um grupo de Mulheres com Depressão e Ansiedade, uma menina bem pequena, chegou de mãos dadas com a sua mãe e pediu com tom maduro pra sua idade: – Tia, cuida da minha mãe!!! Ali, uma filha de apenas 4 anos acompanhava uma mãe com o corpo presente, mas com sua alma ausente..

A mulher conseguiu sair do seu mutismo e se pôs a falar. Foi nesse grupo, que percebi que a era possível fazer psicanálise em um ambulatório público. A palavra era a mola mestra para associação livre de ideias, para construção de um vínculo transferencial e para uma possível travessia do processo terapêutico.

Em 2015, permutada com uma colega, voltei para o Rio de janeiro, minha cidade natal e fui trabalhar na Maternidade Carmela Dutra localizada no Lins. Na UTI Neonatal, bebês prematuros permaneciam por longos períodos em incubadoras. Eu me perguntava, qual é o lugar da psicanálise aqui? Esta era a principal questão que atravessava a mim e ao grupo de estagiários de psicologia hospitalar da PUC RJ, a quem fui supervisionar.
O olhar das mães respondia….

Seus filhos estavam ligados às máquinas, mas o que as sustentava era o desejo de levá-los para casa com saúde. Nosso trabalho era acolher o sofrimento dessas mulheres – a impotência, o medo, o cansaço. Nossa equipe estava presente para garantir que elas pudessem ocupar um lugar, como mães com direito à palavra e ao respeito no ambiente hospitalar. Chegamos em 2020, durante a pandemia mundial do COVID-19.

Eu fui trabalhar no Hospital de Campanha do Maracanã. Um hospital com 400 leitos, montado, às pressas pelo governo do Estado em Tendas, onde o tratamento intensivo e semi-intensivo era feito sem a presença das famílias.

Éramos 60 psicólogos, divididos em dois grupos de 30, que nos alternávamos entre as duas unidades: as” Tendas”, e o “Maracanãzinho”, onde ficavam as famílias. Nós utilizávamos nossos celulares para fazer esta conexão, entre pacientes e familiares.. Nós éramos agentes da comunicação, construtores e reconstrutores de vínculos. Naquela contingência, este processo se tornava possível com o celular em uma ligação de vídeo.

Era como o abrir de uma JANELA para que a conexão pudesse se dar. Penso que estas experiências, dentre outras, trouxeram inúmeros aprendizados para meu modo de fazer psicanálise. O sujeito ao falar de si mesmo, necessita protagonizar o discurso, na intenção de construir sua posição diante do outro.

Que o sofrer tenha um lugar para chegar, que seja através do celular que está nas mãos das pessoas. A dimensão do corpo como organismo simbólico nos permite através da linguagem , novas significações. Reconstruir-se na impermanência da vida é tarefa que a se descobrir através do vínculo transferencial.

A tela é uma JANELA, que por ela possa ocorrer a abertura do sujeito do inconsciente.

Obrigada,
Renata

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