A repetição não passa despercebida pelos olhos das sociedades. Mais do que isso, no senso comum, há a compreensão de que é a repetição que entrega consistência ao próprio olhar humano. Sabemos o que vemos porque vemos o que se repete? É por algo se apresentar repetidas vezes de determinada maneira que passamos a entender, então, que esse algo é aquela coisa. Aqui, a repetição demarca antes de tudo, uma necessidade. Repete-se esse algo porque ele é necessariamente assim, e o oposto se faz verdadeiro, ele é necessariamente assim porque se repete dessa forma. Os comportamentos humanos são, assim, tomados como repetição de padrões. São eles que determinam traços, características, jeitos de ser e de sofrer. Essa determinação pelo que se repete é, então, aproximada a uma definição. Um exemplo: ser ansioso (definição) é ter pensamentos por antecedência (padrão que se repete). A nomeação tem sua importância, mas permanecer nela dá um caráter de destino inescapável para o que se repete, porque fecha o ciclo em si mesmo. Sou ansioso porque tenho pensamentos por antecedência, e tenho pensamentos por antecedência porque sou ansioso. Para a psicanálise, no entanto, a repetição não é mera constatação de uma definição. O que se repete, antes de indicar uma consistência, indica um enigma, uma lacuna. Por que os pensamentos sempre aparecem antes mesmo que a coisa aconteça? Por que sou ansioso? O ponto então não é o ser que a repetição indica, o que seria ser ansioso? Mas sim o saber que ela encobre, há algo ali que não cessa de não se inscrever, mas que insiste em aparecer. Poder tomar a repetição não como demarcação de uma consistência, mas como demarcação de uma lacuna, aquilo que não apresenta quando se apresenta, aponta para a causa do sujeito. Não sabemos o que vemos, porque vemos o que se repete. Parar na nomeação da ansiedade, o que se repete, encobre a própria causa da ansiedade, que deixa de ser sabida. Há uma pedra, um obstáculo, que se presentifica no caminho de cada um. A repetição, então, gira em torno disso, aproximando e afastando o sujeito da lacuna que aponta para a sua causa. Necessariamente esse movimento pendular irá ocorrer. Mas, tomando-o como a tentativa de circunscrever aquilo que não se sabe, surge a possibilidade de que se saiba algo de novo, de novo. Ir de uma repetição que traz a necessidade da resposta definitiva para uma repetição que carrega a contingência de uma resposta possível. *Texto baseado no trabalho a ser apresentado na XVII Jornada de Cartéis da Escola da Coisa Freudiana de Curitiba.

Por Marlon Schmidt Polak