Um empecilho, um estorvo, às vezes a razão da impossibilidade de amar e trabalhar. Não é à toa que a visão mais comum sobre os sintomas seja a de um mal a ser eliminado: seja por terapia, ajustes de comportamento ou uso de remédios. Mas e se eu te dissesse que, para a psicanálise, os sintomas não são problemas a serem eliminados, mas sim soluções a serem repensadas?
Solução a momentos da vida em que nos vemos incapazes de sermos ou termos tudo aquilo que imaginamos. Solução a momentos em que nos vemos obrigados a fazer uma escolha impossível, onde sentimos que, para qualquer lado que formos, estaremos perdendo algo. Solução aos mais diversos tipos de conflito e impasses que a vida nos traz.
Tá, soluções, e daí?
E daí que tratar soluções requer um cuidado bastante diferente do tratamento de problemas. Trabalhar com as soluções de uma pessoa é, cuidadosamente, entender para o que aqueles sintomas servem. Quais questões eles tocam e que caminhos diferentes podem ser possíveis para essas questões.
Um cuidado que, com o tempo, permite que os sintomas possam ser deixados de lado, não como um resto a ser abandonado e esquecido, mas sim como algo que nos serviu por muito tempo, que agora poderá servir de material e base para novas soluções, menos custosas desta vez.
Nos casos mais graves, tratar os sintomas como problemas a serem eliminados pode levar ao desabamento de uma vida que foi lentamente construída. E não é o desabamento que nos interessa, mas sim as possibilidades de mudança.
Nos casos medianos, eliminar os sintomas pode levar a uma série de mudanças, que, quando cuidadosamente examinadas, deixarão claro que se mudou a forma das coisas, mas não sua estrutura: tudo muda, apenas para se manter no mesmo lugar.
Por exemplo: uma pessoa que não consegue ter encontros sexuais pode passar a conseguir, mas ainda assim não sentir prazer naquilo. Alguém com fobia de aviões pode passar a ter fobia dos hotéis em que ficará durante as viagens. Ou mesmo um sujeito sofrendo de depressão poderá melhorar momentaneamente, mas se ver adoecido novamente em breve.
Por isso, a proposta de tratar os sintomas como soluções me parece tão interessante, pois ela permite tocar aquilo que nos causa, não apenas arranhar a superfície.
Uma proposta que, quando posta em prática, pode nos levar a compreender a função e necessidade de cada uma dessas soluções que criamos, com grande esforço, ao longo da vida — nos abrindo, a partir disso, alguns horizontes que apontam para o que mais somos capazes de criar.
Por Felipe Schwarz