Quando se aprende que um psicanalista não dá conselhos nem ensina os caminhos certos da vida, torna-se difícil não perguntar para que serve um psicanalista. Já que se vai a ele para contar histórias e falar, por que não é possível resolver seu próprio sofrimento psíquico sozinho, pensando e falando consigo mesmo?

E a resposta para isso é que nós temos uma resistência enorme a escutar nós mesmos, e é precisamente contra essa resistência que o psicanalista irá trabalhar. Mas por que ela existe?

É fácil pensar o sofrimento como algo a ser eliminado de uma vida, mas isso se torna difícil quando sua origem faz parte de algo que também nos traz coisas boas, que nos ajuda a sustentar nossa existência no mundo. Se pensarmos nossa vida como um corpo, o que está em jogo seria cortar fora uma perna, um braço ou um olho. Que decisão difícil de se tomar! Teremos a capacidade de organizar nossa vida de uma maneira diferente após esse corte? Ou tudo desabará e esse será o fim de nossa existência?

Felizmente, diferente das partes de nosso corpo, é possível criar outras formas de organizar nossa existência para substituir aquelas que foram postas de lado, mas isso não acontece sem o profundo medo de sermos incapazes de colocar outra coisa no lugar.

É das formas que criamos para organizar nossa existência que o sofrimento psíquico advém. Nós nos construímos às pressas, tentando dar conta de um mundo caótico e incerto que nos cerca; não temos tempo algum para pensar quais serão as consequências das formas pelas quais decidimos nos ancorar na existência — e até se tivéssemos, a maior parte desse esforço acontece no inconsciente, um lugar ao qual não temos acesso direto, apenas notícias sobre, através da forma como falamos, das palavras que escolhemos, dos atos falhos e dos sonhos que produzimos.

Então não é por falta de vontade ou ignorância que ouvir a nós mesmos é tão difícil, mas sim por nossa própria existência estar em jogo — toda a construção que fizemos e lutamos para manter em pé na esperança de conseguir encarar a vida e alcançar o que desejamos.

Mas para uma pessoa que está escutando de fora, que se preocupa em entender o que está em jogo ali, no sofrimento que é contado, nas palavras que são escolhidas, nos deslizes que acontecem de tempos em tempos, há muito menos dificuldade e medo de notar e intervir no que importa. E de apontar que o sofrimento pelo qual o paciente está passando tem uma relação direta com a forma que ele se coloca no mundo, e que essa forma não é uma sentença de morte, que há, sim, em pontos-chave, a possibilidade de se organizar de outras maneiras — de mudar.

Diferente do paciente, o analista está há anos sendo treinado para escutar e interferir na organização inconsciente que cada pessoa faz de sua própria vida. Ele terá uma mínima noção de quando e onde intervir para que aquela pessoa possa deixar uma parte de si partir, sem que toda aquela vida desabe sobre o peso do resto que ficou. E, nos piores momentos, ele também poderá servir como uma muleta para o paciente, que não precisará encarar as grandes mudanças sozinho.

Talvez seja possível a analogia com o consertar de um carro que está em movimento, durante uma corrida. Se já é difícil que alguém consiga fazer isso enquanto o carro está andando, imagine então se essa pessoa precisar ser o motorista ao mesmo tempo. Ainda bem que existem os copilotos!

por Felipe Schwarz

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