Muitas pessoas acreditam que fazer psicanálise é um grande esforço do pensamento, um intenso e cansativo trabalho diário, no qual se deve produzir novas ideias que serão entregues ao psicanalista — como uma tarefa de casa — e o psicanalista, por sua vez, poderá então dar a solução ao seu sofrimento. Mas fazer análise não é isso!
O esforço que está em jogo na psicanálise é o de se colocar a falar: daquilo que se pensa, daquilo que se sente, daquilo que se imagina, daquilo de que se tem vontade, de tudo o que passa por sua mente. E a fala que importa não é aquela que se planeja em casa, é aquela que acontece ali junto do psicanalista, falando o que vier à cabeça. O mais importante nesta prática clínica é que a palavra possa sair de sua boca e circular por sua vida.
Pode parecer que algo assim não requer esforço, mas não é o caso, pois quando falamos, temos que nos haver com o que dissemos. E, quando fazemos isso por tempo o suficiente, começamos a notar que não concordamos com tudo que falamos, que muito do que sentimos e pensamos não nos agrada, que desconhecemos uma parte de nós mesmos e que parece que estamos sempre existindo em meio a um novelo de contradições angustiantes.
É muito comum que o esforço seja necessário, por exemplo, quando notamos que ao falar de diferentes situações usamos as mesmas palavras, mostrando que há algo em comum ali, por mais que uma dessas situações possa ser ruim e a outra boa. Ou, quando ao falar de alguém por quem temos um grande amor, acabamos por soltar uma palavra com o sentido oposto ao que queríamos, indicando que onde achávamos ter só amor, também existe ódio. Ou quando abandonamos o nosso jeito de falar por um momento, sem notar, e passamos a imitar alguém que marcou nossa trajetória, expondo que não somos feitos apenas de nós mesmos, que somos uma grande colagem dos outros que passaram por nossas vidas.
Essas situações costumam causar grande incômodo e trazer à tona a vontade de largar o processo analítico, na esperança de que essas contradições possam ser enterradas de volta no lugar em que estavam antes. É necessário um esforço considerável para não seguir este caminho.
Nestes breves exemplos, fica claro que não estamos tão no controle quanto gostaríamos de estar. Que por mais que tentemos pensar nossa vida de forma filosófica ou científica, ainda assim há uma dimensão que escapa dessa versão racional que tentamos criar de nós mesmos, uma dimensão que se dá através do falar e das palavras — que está sempre pontuando o quanto somos contraditórios.
Não precisamos mais ficar completamente à mercê dessa dimensão, deixando que ela guie nossa vida sem nada sabermos dela, ou lidar com o peso de sua existência sozinhos — felizmente temos os psicanalistas para nos ajudar com isso.
Por Felipe Schwarz