Acredito que a vida só exista mesmo nos pequenos detalhes. Digo, a vida leve e abstraída de qualquer impulso esvaziado de desejo. A atual exigência de produtividade, parece estar muito aquém de perceber ou de assimilar o que existe de vívido e de vida, no seu próprio empuxo de afazer.
O que é ser produtivo, afinal? Quem ou o quê, incita e impele os movimentos que nomeamos como produtivos? Com muitas perguntas e alguma percepção, vou ficando a par do quanto de vida existe em tudo aquilo que me disponho a realizar.
Sabemos que não existe vida sem um atravessamento da morte. O que é uma pena. Mas, ao mesmo tempo, é a proximidade inerente à morte, que nos convoca a uma contabilidade mais genuína e gentil diante da vida. Afinal, se cada intensão nos cobra o preço de sua medida, algumas idealizações podem nos custar a vida inteira.
É disso que se trata. De uma aposta nos movimentos de onde possamos extrair um saldo final mais vívido e menos morto. Isso vale para qualquer movimento em que os ganhos financeiros também estejam intimamente implicados. Qual o saldo de vida que desperdiçamos em detrimento de uma conta bancária suculenta?
O saldo de vida só pode ser contabilizado por um corpo vívido. Pensando melhor, a vida acontece naquilo que vibra, arrepia, inebria, alegra e encanta. No que apetece sem maiores esforços. São elementos que nos chegam como cristais, pequenas gotículas de real. E, somente os recebemos, se os poros, olhos e ouvidos estiverem abertos, ávidos e sensíveis. É assim que a vida entra e que pode ficar.
O esforço sem um ganho de vida é um tempo perdido e sem retorno. E, então, quanto menos se vive, mais se morre. Acho uma sorte ter a percepção singela das coisas mais ínfimas, muitas delas invisíveis, nenhuma imperceptível. Ser absorvido pelos encantos, encontrar beleza no caos e apostar na vida. Sempre. Isso é ser gigante. Produtivo, só vale se for com um saldo final que vivifique. No mais, tudo não passa de mera distração, enquanto a vida insiste em acontecer.