Nos primeiros encontros com um novo paciente, é comum ouvir alguma variação das seguintes questões: O que eu devo falar aqui? Você faz perguntas e eu respondo? Como eu sei que estou falando o certo?

Perguntas bastante válidas, já que a psicanálise costuma operar de uma forma não tão comum no mundo de hoje: convidando aquele que a procura a falar livremente, sem especificar o quê. Uma liberdade que costuma assustar as pessoas logo de cara, que estão acostumadas a entrevistas guiadas por questionários e a receber instruções do que se deve fazer.

E o que se deve falar em uma psicanálise?

Sobre tudo o que vier à sua mente! Sobre o que você tem refletido, sobre as questões que ocupam seus pensamentos, sobre aquilo que passa por sua cabeça, sobre aquilo que você não tem coragem de falar para os outros — sobre tudo aquilo que te é mais próprio.

E é precisamente isso o que mais importa: o que te é mais próprio. Como você constrói suas relações, como você descreve e pensa os problemas que enfrenta, como você cria e organiza seus sonhos, como você lida com os afetos e o que é capaz de te afetar ou não, e como todas essas coisas se desdobram para você.

Pensando em uma analogia com a pintura: é como se o psicanalista se interessasse em ver você pintar um quadro, o resultado final desse quadro terá sua importância, mas mais importante que isso será todo o processo pelo qual esse quadro ganhará vida. Desde o começo: do escolher da tela, das dimensões, dos tipos de tinta, dos diversos materiais que poderão fazer parte, até das pinceladas — como cada uma delas será dada —, dos arrependimentos, dos equívocos, das ideias que surgem repentinamente e do momento de decidir que aquele quadro está pronto.

É como se cada aspecto de nossa vida, cada relação que criamos com nós mesmos, com as memórias, com os afetos e com os outros fosse uma pintura, que está constantemente sendo feita e refeita.

E é justamente nesse fazer e refazer que o psicanalista poderá intervir, apontando que uma escolha que está sendo feita agora poderá levar ao mesmo resultado que tanto incomoda na conclusão daquela pintura. Deixando claro que, usando determinado material, nunca se alcançará o resultado que tanto se deseja. Questionando por que se segue determinada via e não tantas outras. Tirando esse processo de existência e criação do campo do acaso, da sorte e da fatalidade e trazendo novas formas de olhar e pintar sua própria vida.

Por Felipe Schwarz

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *