Tenho percebido uma grande procura na clínica em relação à solidão. É até engraçado, porque, nessa era da tecnologia — que aproxima as pessoas por meio das telas —, ao mesmo tempo, também afasta. Você está preso a uma tela, em função dela; às vezes, o único tipo de relação que você tem com alguém é através da tela. E quando olha ao seu redor, está sozinho. Você busca constantemente ter alguém por perto. Claro, um dos pilares da clínica, que sempre ouvimos falar, é: fortaleça sua rede de apoio, tenha pessoas por perto. Mas… e quando isso não é possível?
Vi um post esses dias da Maria Homem dizendo que a solidão é uma epidemia. Ela se manifesta e se alastra de tal forma que, cada vez mais, os espaços são pensados para indivíduos sozinhos: casas e apartamentos cada vez menores — dois, um quarto… às vezes, nem isso. Os lugares que frequentamos fisicamente, mesmo sendo coletivos, por vezes são silenciados novamente pela tela, pelo fone de ouvido… e a interação está cada vez menor.
Como viver nesse novo espaço?
Nessa nova sociedade? Elaborar, falar sobre isso, trazer esses novos nuances, se re-perguntar: qual é o meu lugar nisso tudo? O que me faz ter esse afastamento? O que eu escondo através dessa busca incessante pelo celular? Será que eu me entendo como indivíduo ou preciso do outro para isso? Como lidar com essa angústia, já que o sistema em si eu não consigo mudar?
São esses e outros temas que a gente pode investigar e tentar elaborar na clínica. Porque, no fundo, falar da solidão não é só falar da ausência do outro — é falar de si. É olhar para dentro, com cuidado, com tempo, com escuta. Se eu não consigo mudar o outro, talvez, eu seja direcionado a rever algo em mim mesmo. Quem sabe, nesse processo, o que parecia vazio possa ganhar forma. E companhia.