No Brasil, as taxas de suicídio têm aumentado de forma crescente. De acordo com dados recentes, os homens são responsáveis ​​por uma maioria substancial dos suicídios, com aproximadamente 79,2% dos casos. Estudos[1] sugerem que os homens são mais propensos ao suicídio, mas as mulheres tentam suicídio com mais frequência, porém, seus métodos tendem a ser menos letais, resultando em menos mortes.

É preciso pensar nos possíveis motivadores desta ação de forma urgente, e, uma vez que a ligação entre trauma e suicídio é um tema complexo, pensamos que a psicanálise tem algo a dizer sobre isso. Freud, Winnicott e Ferenczi, três gigantes do pensamento psicanalítico, trouxeram contribuições valiosas para iniciarmos uma compreensão dessa relação.

Sigmund Freud foi pioneiro ao investigar os efeitos do trauma na mente humana. Junto com Sándor Ferenczi, um dos seus discípulos mais próximos, aprofundaram a compreensão do trauma. Para eles o trauma é um evento pelo qual um sujeito passa e que acumula um nível de tensão muito grande de excitação ou dor. Com níveis tão altos desta tensão, a possibilidade de descarga fica comprometida, impedindo a elaboração destes acontecimentos. Sendo assim, o trauma não é algo visível ou percebido de imediato, mas sim uma força subterrânea, latente e potencialmente devastadora, que precisa ser cuidadosamente abordada para evitar uma catástrofe psíquica. É como um vulcão que acumula pressão e magma debaixo da superfície, e com este acúmulo cresce a intensidade. A falta de possibilidades para liberar essa energia provoca uma tensão interna e crescente, até que a estrutura psíquica se torna incapaz de contê-la, resultando em uma erupção. Esta “erupção” pode se manifestar como sintomas graves, colapsos emocionais ou, em casos extremos, comportamentos autodestrutivos, como o suicídio.

Desta forma, Feud observou que, em situações extremas, a mente pode buscar o fim do sofrimento através do suicídio, como uma última tentativa de escapar da dor insuportável. Ferenczi aponta ainda que existe a possibilidade de “identificação com o agressor”, onde a vítima de um trauma severo internaliza as características do agressor como forma de sobreviver psiquicamente. Esse mecanismo pode distorcer profundamente a percepção de si mesmo e do mundo, levando a uma desconexão tão intensa que o suicídio pode parecer a única forma de se libertar dessa prisão interna.

Donald Winnicott escreve também sobre uma visão inovadora com relação a isso. Ele pontua que o papel do ambiente e das relações interpessoais no desenvolvimento psíquico são significativamente importantes, e que o trauma está muitas vezes ligado à falha do ambiente em fornecer um espaço seguro e acolhedor. Quando o ambiente falha gravemente, especialmente na infância, o indivíduo pode não desenvolver um verdadeiro senso de si, levando a um estado de desespero e vazio existencial. Winnicott sugeriu que, em casos de trauma profundo, o suicídio pode ser uma tentativa de destruir um falso self que foi criado em resposta a um ambiente insuportável.

Sendo assim, Freud, Ferenczi e Winnicott, cada um à sua maneira, apontam para o fato de que o trauma pode levar a uma ruptura interna tão grande que o suicídio surge como uma saída, a mais extrema. Enquanto Freud vê o suicídio como uma resposta ao excesso de dor, Ferenczi destaca a confusão de identidade que pode resultar do trauma, e Winnicott sublinha o papel do ambiente falho na construção de um self insustentável. Juntos, eles nos ajudam a entender que o suicídio não aparece como um ato de fraqueza ou covardia, mas como o resultado de uma luta psíquica devastadora para escapar de um sofrimento insuportável. Por isso é fundamental que se levem em consideração essas nuances para oferecer suporte eficaz a quem sofre profundamente, e a psicanálise pode ajudar a aliviar a dor causada pelo trauma, mas também permite que o paciente recupere e reformule aspectos de sua identidade e vida psíquica, promovendo uma maior resiliência e um ressignificado renovado de si mesmo.


[1] BMC Public Health

Por Carolina Marini

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