Ainda desconheço um autor tão contemporâneo como Byung-Chul Han. E, quando digo contemporâneo, não estou dizendo que ele seja atual, apesar de também sê-lo. Falo do contemporâneo, trazendo Agambem. E, com ele, se afirma contemporâneo, o sujeito que leva uma relação muito singular com o tempo. Com o próprio e com o tempo atual. Este é o sujeito que não adere ou não se adesiva a um determinado tempo. Mas, desse tempo, toma as devidas distâncias, salvaguardando o seu próprio tempo.

É somente com essa dissociação ou com esse anacronismo, o fora-tempo diante de um tempo, que é possível lê-lo, escutá-lo e então, quem sabe, até ousar interpretá-lo. Toda época traz consigo as luzes que podem (e muitas vezes acontece) cegar. Podemos ficar inebriados de um tempo. Animados de tal forma, que chegamos a nos afogar nele, sem disso nada saber, senão, depois. Só pode ler um tempo, sem sucumbir a ele, o sujeito que apropriou-se do seu próprio tempo. E, isso que se passa no corpo, esse acontecimento de corpo, é bastante significativo para o feito.

Com um sujeito apropriado de seu tempo e de seu espaço nesse tempo, só existe o contemporâneo. No tempo atual, molhamos os pés e brincamos com essa água de maneira divertida, ou, como nos convém. Só não adentramos mar afora sem nadadeiras. Byung-Chul Han, com sua lucidez invejável, é o sujeito contemporâneo de todos os seus os livros, privilegiando um aspecto diferente e relevante da época atual, em cada um deles. A visão, os faróis do sujeito contemporâneo, veem o que importa, estando à sombra da época atual.

É contemporâneo quem está sempre a altura de sua época, exatamente por ex-sistir a ela e podendo nos instruir desse lugar. É por estar numa extimidade que não lhe deixa portanto, fora de época, que o contemporâneo assiste ao que se passa, estando na primeira fila, no gargarejo desse grande espetáculo, sem, contudo, engoli-lo. Chorando, sorrindo, fazendo drama ou humor, é com a mesma lucidez que nos permite a extimidade numa determinada época, que nos antecipamos aos seus descompassos, antes de neles derraparmos.

Por Beatrice do Valle

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