Vivemos em uma sociedade que, cada dia mais, nos convoca a olhar para o futuro. Palavras como “metas”, “superação” e produtividade invadiram o nosso vocabulário em uma lógica que altera significativamente nossa relação com o tempo e os efeitos de sua passagem. Sob essa perspectiva, a história e o passado aparecem como coisas às quais não se deve ficar preso: o caminho do progresso aponta sempre para frente.
É essa mesma sociedade, entretanto, que se vê fatalmente repetindo questões de seu passado. Quem nunca se pegou repetindo sempre a mesma cena, mas com atores diferentes? São relacionamentos que começam e terminam da mesma forma, conflitos que se repetem com pessoas diferentes, angústias que retornam e parecem apontar sempre para as mesmas questões latentes… Quanto maior a força em calar o passado, mais presente se faz seu retorno.
Tudo o que retorna, informa algo sobre nós e sobre nossa história. História essa que não se faz só de presente nem só de passado. É na medida em que o passado é revivido no presente que podemos compreender que não é possível pensar nessa separação hermética entre passado, presente e futuro. Tudo é parte de um mesmo texto. Cada novo capítulo modifica também a leitura dos anteriores, fazendo com que a história seja continuamente reescrita em seus significados.
É nesse sentido que o convite de uma análise não é o de permanecer preso ao passado. Pelo contrário, trata-se de olhar para trás para poder seguir em frente. Falando e sendo escutado, podemos construir uma narrativa sobre aquilo que foi vivido. Colocar em palavras o sofrimento que passou, mas que insistem em se repetir, permite atribuir novos sentidos à própria história. Não porque o passado desapareça, mas porque passamos a nos relacionar com ele de outro modo.
Nosso passado se repete porque ainda há algo sobre ele que precisa ser dito, elaborado. Elaboração que não muda o que aconteceu, mas altera o lugar que essa experiência ocupa em nossa história. Talvez seguir em frente não seja deixar o passado para trás, mas poder ler de outro modo aquilo que foi escrito. Não para apagar os capítulos anteriores, mas para que eles deixem de determinar, sozinhos, aqueles que ainda estão por vir.
Por Paulo Deboleto