No filme Cléo das 5 às 7 (1962), Agnès Varda acompanha duas horas da vida de uma mulher que espera o resultado de um exame. Mas, enquanto espera saber se está doente, Cléo parece também esperar uma resposta para outra pergunta: quem sou eu quando já não posso me reconhecer no olhar dos outros?

No início do filme, Cléo vive cercada de espelhos. Seu corpo é cuidadosamente observado, vestido, admirado. Ela existe como imagem: cantora, jovem, bonita, desejável. Há algo do male gaze, conceito desenvolvido por Laura Mulvey, nessa posição: o corpo feminino constituído como aquilo que deve ser visto, contemplado e desejado. Cléo não apenas é olhada; ela própria aprende a se olhar a partir desse olhar.

É justamente nessa relação com o olhar do Outro que podemos aproximar Cléo da posição histérica. Na histeria, tal como Lacan retoma Freud, há uma pergunta insistente dirigida ao Outro: o que sou para o seu desejo? O que você quer de mim? O sujeito busca no olhar do Outro uma resposta sobre si, mas nenhuma resposta parece suficiente. Cléo parece habitar inicialmente esse circuito. Precisa ser bonita, admirada, desejada. Precisa confirmar, através do outro, que ainda é aquilo que acredita ser. Até que o corpo introduz algo que o espelho não consegue responder. A possibilidade de uma doença rompe a imagem de um corpo jovem e controlável. De repente, o corpo deixa de ser apenas aquilo que aparece e passa a ser também aquilo que pode falhar, adoecer, envelhecer e morrer. E então acontece uma transformação de posição.

Cléo começa a sair da frente dos espelhos. Caminha por Paris. Passa a observar os outros. Vê pessoas que antes pareciam existir apenas como cenário para sua própria imagem. O mundo deixa, pouco a pouco, de funcionar como um espelho. O ponto alto do filme talvez seja justamente esse deslocamento: Cléo deixa de perguntar apenas como é vista e começa a olhar.

A angústia, nesse sentido, não aparece somente como medo da morte. Ela surge quando as garantias imaginárias que sustentavam sua identidade começam a vacilar. Lacan nos mostra que a angústia emerge quando algo vacila no lugar que o sujeito ocupa diante do desejo do Outro.

O que está em jogo, então, não é apenas a possibilidade de morrer, mas a possibilidade de deixar de ser aquela que se acreditava ser. Quando Cléo encontra espaço para falar sobre aquilo que teme, algo se desloca. A doença continua existindo. A morte continua sendo possível. Mas agora há palavras onde antes havia apenas espera.

Não se trata de eliminar a falta, a angústia ou a incerteza, mas de encontrar uma posição diferente diante delas. Ao longo dessas duas horas, Cléo começa a se afastar da imagem que os outros lhe devolvem e a se aproximar de algo que não pode ser encontrado em nenhum espelho. Talvez seja justamente aí que alguma coisa de seu desejo possa começar a aparecer.

Por Evelyn Magalde

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *